Madrasta acusada de envenenar enteados com 'chumbinho' enfrenta júri popular no Rio
Madrasta acusada de envenenar enteados vai a júri no Rio

Madrasta acusada de envenenar enteados com 'chumbinho' enfrenta júri popular no Rio de Janeiro

Nesta quarta-feira (4), tem início no III Tribunal do Júri do Rio de Janeiro o julgamento de Cíntia Mariano Dias Cabral, madrasta acusada de envenenar os dois enteados com a substância conhecida como "chumbinho" em 2022. A ré responde pela morte de Fernanda Cabral, de 22 anos, e pela tentativa de homicídio contra Bruno Cabral, que tinha 16 anos na época dos fatos.

Adiamento polêmico e nova data para o julgamento

O processo judicial já havia sido iniciado em outubro do ano passado, mas foi interrompido de maneira abrupta quando a defesa da acusada decidiu abandonar o plenário. Os advogados alegaram não ter tido acesso ao material extraído do celular da ré, considerado essencial para a preparação da defesa. O pedido de adiamento foi negado pela juíza responsável pelo caso, o que levou à saída dos defensores.

"Nós imediatamente pedimos a extração das informações, dessa perícia do telefone. Até porque o delegado, por diversas vezes, menciona mensagens desse telefone. Então, nós precisamos, temos que ter essas mensagens", afirmou o advogado Carlos Augusto dos Santos. "Pedimos o adiamento com base nisso, porque não tivemos acesso a essa extração, porque é essencial para a defesa. E a juíza entendeu pelo não adiamento, e nós não temos como fazer um plenário sem essas provas. Abandonamos o plenário, porque é impossível fazer um plenário com ausência dessas provas."

Após esse episódio, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro remarcou o júri popular para o dia 4 de março de 2026, data em que finalmente se inicia o julgamento.

Os detalhes graves da acusação

Segundo a denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), Cíntia Mariano teria colocado veneno na comida servida aos filhos de seu companheiro, Adeílson Jarbas Cabral, com quem vivia há seis anos. Os eventos ocorreram em um intervalo de dois meses, motivados por ciúmes da relação dos jovens com o pai.

Em 15 de março de 2022, a acusada teria contaminado a refeição de Fernanda, que passou mal imediatamente após comer, foi hospitalizada e veio a falecer treze dias depois. Em maio do mesmo ano, o método teria sido repetido com Bruno, que sobreviveu após ingerir alimento envenenado.

Laudos periciais confirmaram que ambas as vítimas apresentaram sintomas compatíveis com intoxicação exógena por carbamato, princípio ativo do "chumbinho", substância utilizada como veneno para ratos. As análises indicaram que a morte de Fernanda e as lesões sofridas por Bruno decorreram de ação química provocada por envenenamento intencional.

Confissões familiares e investigações aprofundadas

Durante o processo, dois filhos biológicos de Cíntia prestaram depoimentos afirmando que a mãe confessou ter colocado veneno na comida dos enteados. Carla Mariano relatou que, após pressão familiar, a ré admitiu o crime contra Bruno e explicou ter puxado o prato do jovem por arrependimento. O irmão Lucas Mariano também confirmou ter ouvido a mãe admitir as ações, destacando o nervosismo dela no dia do almoço contaminado.

O corpo de Fernanda Cabral foi exumado um mês após sua morte, já sob forte suspeita de envenenamento. As análises realizadas comprovaram que a jovem foi vítima de intoxicação por substância química. Testemunhas médicas ouvidas no processo relataram que, inicialmente, não havia suspeita de envenenamento, mas especialistas destacaram que uma morte súbita em pessoa jovem e saudável deveria ter levado ao encaminhamento imediato ao Instituto Médico Legal.

Como funcionará o julgamento pelo Tribunal do Júri

O caso será julgado pelo Tribunal do Júri, instância responsável por crimes dolosos contra a vida, como homicídio. Sete jurados, cidadãos comuns sorteados entre pessoas previamente convocadas pela Justiça, formarão o Conselho de Sentença e decidirão se Cíntia deve ser condenada ou absolvida.

O procedimento seguirá as seguintes etapas:

  1. Chamada e sorteio dos jurados, com possibilidade de recusa por acusação e defesa
  2. Fase de instrução com depoimentos:
    • Vítima sobrevivente (Bruno Cabral)
    • Testemunhas da acusação
    • Testemunhas da defesa
    • Interrogatório da ré
  3. Debates com tempo determinado para acusação e defesa
  4. Réplica e tréplica das partes
  5. Votação dos jurados em sala secreta
  6. Proclamação do resultado pelo juiz presidente

Os jurados votarão quesitos formulados pelo juiz sobre materialidade do crime, autoria e qualificadoras, com decisão tomada por maioria simples. Em caso de condenação, o magistrado fixará a pena adequada aos crimes imputados.

Contexto do crime e prisão da acusada

Cíntia Mariano foi presa em maio de 2022, enquanto prestava depoimento na 33ª DP de Realengo. Antes da prisão, chegou a tentar contra a própria vida, segundo registros da investigação. Bruno Cabral relatou à polícia que o feijão servido pela madrasta estava "amargo e com pedrinhas azuis", começando a passar mal aproximadamente trinta minutos após a refeição.

Fernanda Cabral faleceu após treze dias internada em hospital da Zona Oeste do Rio, enquanto Bruno sobreviveu ao envenenamento. A mãe das vítimas, desconfiada do ocorrido, procurou a delegacia que deu início às investigações que culminaram na denúncia e no atual julgamento.

O Ministério Público sustenta que há provas robustas da materialidade e autoria dos crimes, destacando que foram praticados por motivo fútil relacionado a ciúmes da relação familiar. A defesa, por sua vez, busca contestar as evidências e garantir o direito ao amplo contraditório durante todo o processo judicial.