Deputadas Duda Salabert e Erika Hilton têm fotos em álbum policial de suspeitos em PE
Fotos de deputadas em álbum policial geram acusações de racismo

Fotos de deputadas em álbum policial geram crise em Pernambuco

As deputadas federais Erika Hilton (PSOL-SP) e Duda Salabert (PDT-MG) exigiram explicações formais do governo de Pernambuco após descobrirem que suas fotografias foram incluídas em um álbum utilizado pela Polícia Civil para reconhecimento de suspeitas em um caso de roubo de celular ocorrido no Recife. As parlamentares denunciaram publicamente o que classificam como racismo e transfobia institucional, gerando uma crise política no estado.

Caso veio à tona através de defensora pública

A situação tornou-se pública na terça-feira, 24 de setembro, quando as duas deputadas foram formalmente comunicadas sobre a inclusão de suas imagens pela defensora pública de Pernambuco, Gina Ribeiro Gonçalves Muniz. Segundo informações apuradas, as fotografias de Duda Salabert e Erika Hilton apareciam em um álbum contendo imagens de seis pessoas diferentes, apresentado à vítima de um roubo ocorrido em fevereiro de 2025 como possíveis suspeitas.

O procedimento de reconhecimento fotográfico foi realizado pela Polícia Civil no dia 8 de abril, seguindo os protocolos padrão para investigações criminais. No entanto, a defensora pública Gina Muniz alertou que a apresentação do álbum pautada "em características identitárias, e não em traços físicos individualizantes" afronta a dignidade das parlamentares e contamina "irremediavelmente a validade do ato probatório".

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Deputadas denunciam discriminação nas redes sociais

Nas plataformas digitais, Erika Hilton manifestou indignação ao relatar que acionou diretamente a governadora Raquel Lyra (PSD) para exigir respostas sobre os motivos que levaram à inclusão de sua imagem no álbum policial. A parlamentar destacou que o uso do reconhecimento fotográfico possui normas claras estabelecidas pelo Código Penal brasileiro, e que o caso demonstra incompetência, discriminação e transfobia por parte dos órgãos de segurança.

"Quantos deputados brancos constam no álbum de reconhecimento fotográfico da Polícia Civil de Pernambuco quando o suspeito é um homem branco? Quantas deputadas mulheres cis constam no álbum quando a suspeita é uma mulher cis? Quantos deputados idosos aparecem nessas situações? Eu chuto, com muita confiança, que a resposta para essas três perguntas é ZERO", questionou Erika Hilton em suas redes sociais.

Duda Salabert, por sua vez, classificou o episódio como um "absurdo gravíssimo" e afirmou que já acionou formalmente o sistema de Justiça. "Isso é racismo e transfobia institucional. Não vamos aceitar que identidade de travestis vire critério de suspeição", declarou a deputada, reforçando que pessoas trans, negras ou em situação de vulnerabilidade social conseguem "com muita luta, sair das ruas", mas mesmo assim continuam sendo associadas a cenas criminais pelas autoridades.

Governadora determina investigação rigorosa

Na manhã da quarta-feira, 25 de setembro, a governadora Raquel Lyra utilizou suas redes sociais para se pronunciar sobre o caso, classificando-o como "inadmissível" e anunciando a abertura de uma investigação formal. "Determinei apuração rigorosa com abertura de processo na Corregedoria da Secretaria de Defesa Social. Preconceito e violência simbólica não são tolerados em Pernambuco", afirmou a governadora em sua declaração pública.

Poucas horas após o anúncio, ambas as deputadas agradeceram publicamente à governadora pela iniciativa. Erika Hilton revelou que conversou por telefone com Raquel Lyra, que teria pedido desculpas pelo ocorrido e se comprometido com a devida apuração dos fatos e responsabilização dos envolvidos. "Agradeço à governadora pela ligação e pelo compromisso assumido", disse a parlamentar.

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Duda Salabert também comentou sobre a investigação, destacando que erros como esse fragilizam significativamente as apurações de crimes reais. "Muito importante essa apuração, pois o erro cometido pela Polícia Civil fragiliza a investigação de crimes e abre espaço para estigmatização das identidades trans. Segurança pública é uma das prioridades em sua gestão e em minha atuação parlamentar", declarou a deputada, enfatizando a necessidade de mudanças concretas nos protocolos policiais para evitar injustiças futuras.

Polícia Civil emite nota oficial

Em comunicado oficial, a Polícia Civil de Pernambuco informou que apura rigorosamente os fatos e que todas as medidas cabíveis estão sendo adotadas para esclarecer o caso. A instituição reforçou que mantém diretrizes e protocolos contínuos para orientar a atuação de seus servidores, com foco em conduta ética e responsável, e repudiou publicamente qualquer prática de preconceito ou discriminação.

A corporação também reafirmou seu compromisso com a dignidade humana, o cumprimento estrito da legislação brasileira e o atendimento igualitário a toda a população pernambucana, independentemente de características identitárias ou posição social.

Secretaria de Defesa Social não esclarece critérios

A Secretaria de Defesa Social (SDS) de Pernambuco, quando questionada sobre os critérios específicos para inclusão de pessoas em álbuns de reconhecimento de suspeitos, não forneceu respostas detalhadas às indagações da imprensa. Entre as perguntas não respondidas estavam:

  • Quais os critérios técnicos para a inclusão de alguém em um álbum de rostos suspeitos?
  • Por que exatamente os rostos das deputadas foram incluídos no caso em questão?
  • As imagens das parlamentares foram utilizadas em outras situações de reconhecimento?
  • É criado um álbum diferente a cada procedimento de reconhecimento?
  • É comum a utilização de imagens de pessoas famosas ou autoridades nesses álbuns policiais?

Em nota resumida, a SDS limitou-se a informar que a Corregedoria Geral da secretaria estadual iniciou uma investigação preliminar para verificar as informações e coletar subsídios necessários para a instauração de processo administrativo disciplinar. O caso continua sob análise das autoridades competentes, enquanto as deputadas aguardam respostas concretas sobre as motivações por trás da inclusão de suas imagens no álbum policial.