Fotos de deputadas em álbum policial geram denúncia de transfobia e racismo institucional
Deputadas em álbum policial: denúncia de transfobia e racismo

Imagens de parlamentares em álbum de suspeitos desencadeiam crise institucional em Pernambuco

Um caso envolvendo o uso indevido de fotografias de duas deputadas federais em procedimentos policiais gerou forte repercussão nacional e acusações graves de discriminação. As imagens de Erika Hilton (PSOL-SP) e Duda Salabert (PDT-MG) foram incluídas em um álbum fotográfico utilizado para reconhecimento de suspeitos em um crime de roubo de celular registrado em Recife, capital pernambucana.

Denúncias de transfobia e racismo institucional

As duas parlamentares, ao tomarem conhecimento do fato, imediatamente denunciaram a ocorrência como um claro caso de transfobia e racismo institucional. Ambas exigiram explicações formais do governo estadual de Pernambuco e da governadora Raquel Lyra (PSD), com quem mantiveram contato direto nesta quarta-feira, 25 de junho.

"Isso é gravíssimo! Isso é racismo e transfobia institucional. Já acionei a Justiça. Não vamos aceitar que identidade de travestis vire critério de suspeição", afirmou Duda Salabert em suas redes sociais, classificando o episódio como um "absurdo" de grandes proporções.

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Resposta imediata da governadora e abertura de investigação

Diante da pressão pública, a governadora Raquel Lyra não tardou a se manifestar. Através de suas redes sociais, ela anunciou a determinação de uma apuração rigorosa do caso, com abertura de processo na Corregedoria da Secretaria de Defesa Social.

"Inadmissível o uso da imagem das deputadas federais Duda Salabert e Érika Hilton pela Polícia Civil de PE. Determinei apuração rigorosa com abertura de processo na Corregedoria da Secretaria de Defesa Social. Preconceito e violência simbólica não são tolerados em PE", declarou a governadora em nota oficial.

Posteriormente, as duas deputadas agradeceram publicamente a atitude de Lyra. Erika Hilton revelou que manteve uma conversa telefônica com a governadora, que teria se desculpado pelo ocorrido e se comprometido com a devida apuração dos fatos e responsabilização dos envolvidos.

Posicionamento das instituições envolvidas

A Polícia Civil de Pernambuco emitiu nota informando que:

  • Apura rigorosamente os fatos com adoção de todas as medidas cabíveis
  • Mantém diretrizes e protocolos contínuos para orientar conduta ética dos servidores
  • Repudia qualquer prática de preconceito ou discriminação
  • Reforça compromisso com dignidade humana e atendimento igualitário

A Secretaria de Defesa Social limitou-se a informar que a Corregedoria Geral iniciou investigação preliminar para verificação das informações e coleta de subsídios para instauração de processo administrativo, sem responder a questionamentos específicos sobre critérios de inclusão no álbum.

Irregularidades apontadas pela Defensoria Pública

O caso veio à tona através de ofício enviado pela Defensoria Pública de Pernambuco (DPPE) à deputada Duda Salabert. A defensora pública Gina Ribeiro Gonçalves Muniz, autora do documento, apontou que a inclusão das fotos pode estar relacionada a fatores discriminatórios como racismo e transfobia.

Segundo a DPPE, há indícios de que o critério de seleção das imagens tenha sido baseado em características como raça e identidade de gênero, o que configuraria transfobia e racismo institucional. A defensora destacou ainda que o procedimento de reconhecimento facial, realizado em 8 de abril de 2025, apresentou diversas irregularidades que comprometem sua validade jurídica.

"Além de afrontar a dignidade das parlamentares, a apresentação de álbum fotográfico pautado em características identitárias, e não em traços físicos individualizantes, contamina irremediavelmente a validade do ato probatório", afirmou Gina Muniz em análise técnica do caso.

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Questionamentos sobre práticas policiais

Erika Hilton levantou questionamentos fundamentais sobre a seletividade dos procedimentos policiais: "Quantos deputados brancos constam no álbum de reconhecimento fotográfico da Polícia Civil de Pernambuco quando o suspeito é um homem branco? Quantas deputadas mulheres cis constam no álbum quando a suspeita é uma mulher cis? Quantos deputados idosos constam no álbum quando o suspeito é um idoso? Eu chuto, com muita confiança, que a resposta para essas três perguntas é ZERO".

Duda Salabert complementou a crítica, destacando que erros como esse fragilizam investigações criminais: "Muito importante essa apuração, pois o erro cometido pela Polícia Civil fragiliza a investigação de crimes e abre espaço para estigmatização das identidades trans. Segurança pública é uma das prioridades em sua gestão e em minha atuação parlamentar. É fundamental que esse caso gere mudanças concretas nos protocolos para evitar injustiças".

Consequências jurídicas e administrativas

Diante das irregularidades identificadas, a Defensoria Pública solicitou a nulidade do reconhecimento fotográfico no processo que tramita na 16ª Vara Criminal da Capital, pedido que foi aceito pela Justiça. A defensora Gina Muniz alertou que o uso de material sem critérios claros é prática criticada no âmbito jurídico e pode induzir a erros graves de investigação.

O caso específico envolve um álbum com fotos de seis pessoas apresentado à vítima de um roubo ocorrido em fevereiro de 2025. As imagens das deputadas apareciam entre as possíveis suspeitas, em procedimento que agora é questionado em suas bases legais e éticas.

Este episódio coloca em evidência não apenas questões de discriminação, mas também problemas estruturais nos protocolos de investigação policial, exigindo revisão profunda dos métodos de reconhecimento de suspeitos e maior controle sobre a formação de álbuns fotográficos utilizados em procedimentos criminais.