Defesa de ex-policial no caso Marielle adota estratégia ousada ao evocar capitão Adriano no STF
O julgamento do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, que teve início nesta terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), foi marcado por uma manobra inesperada da defesa de um dos acusados. O advogado do ex-policial militar Ronald Paulo Alves Pereira, conhecido como Major Ronald, optou por uma tática considerada por muitos como suicida, ao expor publicamente as conexões de seu cliente com o temido Escritório do Crime.
Estratégia da defesa busca descredibilizar delação premiada
Em uma tentativa audaciosa de livrar o Major Ronald da condenação, o advogado Igor Luiz Batista de Carvalho não hesitou em revelar que seu cliente mantinha uma relação de "proximidade estreita" com o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, o capitão Adriano, um dos fundadores do Escritório do Crime e adversário declarado de Ronnie Lessa. Lessa, por sua vez, é o colaborador premiado que confessou ter executado Marielle Franco e apontou os mandantes do crime.
O criminalista argumentou na tribuna do STF que Ronald e Adriano eram "compadres" e tinham uma ligação histórica, enfatizando que o ex-policial estaria alinhado com o Escritório do Crime, e não com Lessa. "Ronald e Lessa eram inimigos. Estamos falando de pessoas que possuíam interesses antagônicos", declarou o advogado, sugerindo que seria implausível acreditar em uma conspiração entre rivais.
Exposição de conexões criminosas gera controvérsia
A defesa foi além ao exibir um trecho do depoimento do delegado Giniton Lages, no qual ele afirmou que Ronald "não estaria na mesma caixa do Ronnie Lessa. Ele estaria na caixa no Escritório do Crime". Essa revelação, embora busque distanciar o acusado do executor, acabou por destacar ainda mais os vínculos do Major Ronald com organizações criminosas, em uma jogada que especialistas classificam como arriscada.
Adriano da Nóbrega, mencionado pela defesa, foi morto em uma ação policial na Bahia em 9 de fevereiro de 2020, mas sua figura continua a pairar sobre o caso. A estratégia adotada pelo advogado de Ronald foi descrita por ele mesmo como "apontar o canhão para ele mesmo", numa referência ao perigo de expor tais ligações em um tribunal.
Contexto do julgamento e implicações
O Major Ronald foi implicado no assassinato de Marielle Franco a partir da delação premiada de Ronnie Lessa, que o acusou de monitorar os passos da vereadora nas semanas que antecederam o crime. A defesa, no entanto, sustenta que a versão de Lessa não é verossímil, dada a inimizade entre os dois.
O julgamento no STF segue sob intenso escrutínio público, com a defesa do ex-policial militar adotando uma postura que mistura transparência forçada e confronto direto com as acusações. A tática de evocar o capitão Adriano e o Escritório do Crime, embora inusitada, levanta questões sobre os limites da estratégia defensiva em casos de alta complexidade e repercussão nacional.
Especialistas em direito penal avaliam que a exposição de conexões criminosas pode, paradoxalmente, reforçar a imagem do acusado como parte de um esquema maior, em vez de inocentiá-lo. O desfecho dessa manobra ainda está por ser visto, mas ela já marca um capítulo polêmico no longo processo de busca por justiça no caso Marielle Franco.



