Criminosos no Rio de Janeiro têm ateado fogo em lojas, cortado cabos e ameaçado funcionários para obter o controle do serviço de internet em comunidades dominadas. A disputa territorial pelo domínio da rede faz parte de uma estratégia mais ampla do crime organizado, que agora explora serviços essenciais como fonte de lucro, superando até mesmo o tráfico de drogas.
Postes como peças centrais
Os postes de luz se tornaram elementos fundamentais no avanço do crime organizado. Por meio deles, facções e milícias furtam energia, distribuem serviços clandestinos e controlam o acesso à internet em áreas sob seu domínio. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, o modelo criminoso deixou de ser apenas ligado ao tráfico de drogas e passou a incluir a exploração de serviços básicos.
O subsecretário de Inteligência da pasta, Pablo Sartori, afirma que o domínio territorial hoje é mais lucrativo para as quadrilhas do que a venda de drogas, já que praticamente todos os moradores dependem de serviços como internet.
Empresas de fachada e monopólios
Investigações revelam que criminosos abriram empresas em nome de laranjas para atuar como provedoras de internet. Essas empresas compram sinal das grandes operadoras e revendem o serviço em áreas dominadas, criando monopólios locais. Segundo a Secretaria de Segurança, em Rio das Pedras há dez empresas ligadas ao crime organizado; na Gardênia Azul, cinco; e na Muzema, três.
Até outubro do ano passado, provedores com até 5 mil assinaturas não precisavam de autorização da Anatel para funcionar. Após um pedido do governo do Rio, a regra mudou e agora todas as empresas precisam se cadastrar na agência.
Estratégias de combate
Uma estratégia estudada pelo estado é substituir a internet via cabo pela conexão por rádio em comunidades que o governo pretende reocupar. A ideia é usar torres de transmissão já instaladas na região de Jacarepaguá. A Secretaria de Segurança acredita que, sem os cabos nos postes, o crime organizado perde parte do controle sobre o serviço.
Especialistas apontam que o combate passa por diferentes frentes. O conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Roberto Uchôa, defende o enfrentamento da corrupção e da cooptação de agentes públicos pelas organizações criminosas. Já a professora da FGV Joana Monteiro afirma que é necessário limitar o acesso desses grupos a armas, combater a colaboração de agentes do Estado e reduzir a capacidade financeira das quadrilhas.
Para o delegado da Draco, Jefferson Ferreira, a principal estratégia é a asfixia financeira das organizações criminosas. Segundo ele, a Polícia Civil já pediu o bloqueio de quase R$ 6 bilhões em bens e valores ligados às quadrilhas.
Ações do governo
Em nota, o Governo do Estado afirmou que o enfrentamento às milícias e facções criminosas é prioridade e destacou ações integradas de inteligência, operações para retomada de territórios e medidas para asfixiar financeiramente essas organizações. A Polícia Civil informou que atua na identificação e captura de criminosos que tentam expandir suas atividades no estado e disse que, desde 2025, 514 suspeitos nessa condição foram presos. Já a Polícia Militar afirmou que intensifica o policiamento e operações em áreas estratégicas para enfraquecer o domínio territorial exercido por criminosos. O governo também destacou a cooperação com forças federais e secretarias de segurança de outros estados para combater a atuação das quadrilhas.
Restrição de mercadorias e extorsão
Em áreas dominadas pelo tráfico ou pela milícia, comerciantes relatam que determinados produtos só podem ser vendidos por estabelecimentos autorizados pelos criminosos. Um morador da Zona Oeste contou que até itens simples, como vassoura e farinha, passaram a ser controlados. “A nossa maior dificuldade é internet. A gente não tem acesso a grandes empresas. A gente só tem acesso a empresas que, ou eles permitem ou eles são os donos”, comentou.
O morador também relatou que percebe aumento nos preços por causa da restrição de fornecedores. “Vassoura, por exemplo, fui comprar outro dia numa loja de material de construção (...) e quando pedi uma vassoura o rapaz me informou que não tinha vassoura porque ele não podia vender vassoura”, disse. “A loja não tá mais autorizada a vender vassoura. Se a gente quiser comprar vassoura tem que comprar da loja que eles autorizam. Tem que procurar quem tá vendendo. Eles tão redistribuindo as vendas”, explicou o morador.
A equipe do RJ2 esteve na região e confirmou a proibição em conversas gravadas com comerciantes. Outros produtos também passaram a ser controlados pelos grupos criminosos, segundo relatos de moradores. “A água, aquela água de galão, tá com eles. Você não pode botar aqui. Tem que comprar lá com eles. Carvão, é com eles. Alho, é com eles. Tomate, é com eles”. “Você não pode ir lá pro Ceasa comprar, tem que comprar com eles”.
As restrições afetam comerciantes, consumidores e fornecedores, além de reduzir a concorrência e provocar aumento de preços em regiões já marcadas pela precariedade de serviços públicos.
Ameaças e taxas formalizadas
O controle criminoso sobre a economia dessas regiões também aparece em documentos internos de grandes empresas. Funcionários relataram, por e-mail, ameaças feitas por criminosos armados contra equipes de entrega. “A gente ia com o caminhão tentar realizar as entregas, eles chegavam sempre armados, com violência e intimidando a equipe de entrega”, contou. Segundo ele, os criminosos exigiam pagamentos semanais para permitir as entregas. “Passando informações que a gente só poderia entregar lá se tivesse pagando um valor semanal”.
O funcionário relatou ainda ameaças de roubo e destruição dos veículos. “E que se voltasse a entregar sem realizar esse pagamento, eles iriam furtar as mercadorias, iriam roubar o caminhão, depredar”. Em um dos e-mails obtidos pela reportagem, um funcionário afirma que criminosos “Furtaram os canhotos das entregas” e ameaçaram levar o caminhão na próxima abordagem. O documento lista 140 estabelecimentos que deixariam de receber produtos por causa das ameaças, entre eles padarias, pet shops, mercearias, restaurantes e supermercados.
Outro relatório interno aponta que comerciantes informaram a cobrança de uma “taxa pedágio” de R$ 800 por semana por empresa. Diante das ameaças, a companhia decidiu suspender as entregas. “Infelizmente, a empresa teve que deixar de atender esses clientes. como a empresa não compactua com esse tipo de pagamento ilegal, a gente deixou de atender esses clientes”. Segundo o funcionário, a decisão trouxe prejuízos para todos os envolvidos.
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) afirma que a insegurança afeta diretamente a atração de investimentos no estado. O gerente de infraestrutura da entidade, Isaque Ouverney, afirma que empresários consideram a segurança pública decisiva para investir. “Sem segurança pública, os investimentos não serão realizados e não ficarão no território”. Moradores também relatam sensação de abandono e medo diante do avanço do crime organizado. “A gente tá hoje refém dessa bandidagem. e nosso medo é que eles tão crescendo cada vez mais. e a gente não sabe o que que eles vão fazer amanhã”.



