Criança de Utah repatriada de Cuba em caso complexo de custódia e identidade de gênero
O governo do presidente Donald Trump mobilizou um avião governamental para repatriar uma criança de 10 anos de Utah que se encontrava em Cuba, no centro de uma disputa de custódia complexa e controversa que envolve diretamente a identidade de gênero da própria criança. A operação internacional destacou as tensões políticas e sociais em torno dos cuidados de afirmação de gênero para menores.
Viagem não autorizada e acusações graves
A mãe da criança, Rose Inessa-Ethington, uma mulher transgênero que administrava um popular blog político em Utah na década de 2010, foi acusada de levar a criança para Cuba sem a permissão da mãe biológica. Ela foi presa juntamente com sua parceira, Blue Inessa-Ethington, e ambas enfrentam acusações nos Estados Unidos de sequestro parental internacional.
Segundo documentos judiciais federais de Utah, o casal viajou inicialmente com a criança para o Canadá no final de março, alegando participar de um acampamento, acompanhado também pelo filho de 3 anos de Blue. Após informarem à mãe biológica da criança mais velha sobre a chegada ao Canadá, desligaram seus telefones celulares. Em 1º de abril, voaram de Vancouver para o México e depois para Cuba, conforme detalhado em uma denúncia criminal.
Preocupações com cirurgia de afirmação de gênero
As investigações começaram quando a criança não foi devolvida à mãe em Utah no dia 3 de abril, conforme combinado. A mãe biológica, que tem a guarda compartilhada após o divórcio de Rose, registrou um boletim de ocorrência de pessoa desaparecida na polícia de Logan, Utah.
Autoridades federais e estaduais buscaram o retorno da criança após um membro da família expressar preocupação com uma possível viagem a Havana para realizar uma cirurgia de transição de gênero na criança. O chefe de polícia de Logan City, Jeff Simmons, afirmou que o foco inicial estava nas alegações de interferência na custódia, mas posteriormente os investigadores tomaram conhecimento das preocupações com a cirurgia.
O sargento Brandon Bevan, porta-voz da polícia de Logan, esclareceu que essas preocupações foram levantadas por um familiar, mas sem evidências físicas concretas. "Eles apenas tinham essa preocupação, sem nenhuma evidência física concreta", declarou Bevan.
Evidências financeiras e médicas
O FBI descobriu que Blue Inessa-Ethington sacou US$ 10 mil de sua conta corrente antes da viagem. Além disso, agentes encontraram em sua residência um bilhete com instruções de uma terapeuta de saúde mental de Washington, D.C., solicitando o envio dos US$ 10.000 e informações sobre cuidados médicos de afirmação de gênero para crianças. Importante destacar que o bilhete não mencionava Cuba especificamente.
As acusações não especificam se o casal realmente planejava realizar a cirurgia de redesignação sexual da criança em Cuba, nem como pretendiam fazê-lo, considerando que esse tipo de procedimento cirúrgico não é legal para menores em território cubano.
Operação de resgate e retorno judicial
Em 13 de abril, um juiz do estado de Utah ordenou a devolução da menina de 10 anos à sua mãe biológica. Três dias depois, um juiz federal expediu um mandado de prisão contra Rose e Blue Inessa-Ethington. No mesmo dia, as autoridades cubanas localizaram o grupo em território nacional.
Eles foram deportados para os Estados Unidos a bordo de um avião do governo na segunda-feira seguinte e compareceram perante um tribunal federal em Richmond, Virgínia. A criança de 10 anos foi devolvida à sua mãe biológica, conforme confirmado por Melissa Holyoak, primeira assistente do procurador dos EUA em Utah.
Representantes do FBI e do escritório do procurador dos EUA em Utah se recusaram a comentar o que aconteceu com a criança de 3 anos que estava com o grupo durante toda a jornada internacional.
Histórico de disputa de custódia
A disputa pela guarda entre os pais não é recente. Há cinco anos, Blue Inessa-Ethington criou uma campanha de arrecadação online intitulada "Ajude uma mãe trans a manter a guarda de seu filho", que arrecadou US$ 9.766. Na página, ela alegava que a mudança do ex-marido de Rose para um condado distante afetava negativamente o tempo que a mãe transgênero passava com a criança.
Segundo depoimento da agente especial do FBI Jennifer Waterfield, datado de 16 de abril, familiares afirmaram que a criança foi designada como do sexo masculino ao nascer, mas se identifica como menina devido ao que consideram "manipulação" por parte de Rose Inessa-Ethington.
Contexto político dos cuidados de afirmação de gênero
O uso da aeronave do Departamento de Justiça nesta investigação ocorre em um momento político sensível. Em dezembro de 2025, o governo Trump tomou medidas para restringir o atendimento de afirmação de gênero para menores, o que levou um terço dos estados americanos a entrar com ações judiciais contra a administração federal.
Este caso representa mais um capítulo nos confrontos entre uma administração que argumenta que os cuidados de saúde para pessoas transgênero podem ser prejudiciais para crianças e defensores que afirmam que tais tratamentos são medicamente necessários.
Cirurgias de afirmação de gênero são extremamente raras entre crianças nos Estados Unidos, conforme mostram pesquisas médicas. Diversas organizações médicas importantes recomendam cautela em relação a procedimentos cirúrgicos em menores de idade, enfatizando que decisões sobre tratamentos devem ser tomadas caso a caso, com avaliações rigorosas.
Estatísticas indicam que menos de 1 em cada mil adolescentes nos EUA recebe medicamentos para afirmação de gênero, como hormônios ou bloqueadores da puberdade.
Regulamentação em Cuba
Em Cuba, as cirurgias de afirmação de gênero são expressamente proibidas para menores de idade. Para adultos cubanos, esses procedimentos são realizados exclusivamente pelo sistema público de saúde, sob estrita supervisão médica em hospitais públicos designados.
O processo de autorização é rigoroso e costuma levar anos, exigindo uma ampla gama de avaliações médicas e psicológicas por uma comissão especializada que analisa minuciosamente o prontuário completo do paciente antes de qualquer aprovação.
Os réus, Rose e Blue Inessa-Ethington, serão levados de volta a Utah para responder individualmente por uma acusação de sequestro parental internacional cada, conforme determinam os autos do processo judicial em andamento.



