Delegado que prendeu Ramagem nos EUA deveria ter sido substituído há um mês, revela portaria
Delegado que prendeu Ramagem deveria ter sido trocado há um mês

Substituição de delegado que atuou na prisão de Ramagem estava determinada desde março

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, determinou há aproximadamente um mês a substituição do delegado Marcelo Ivo de Carvalho como oficial de ligação do Brasil junto ao ICE (U.S. Immigration and Customs Enforcement), o órgão de imigração dos Estados Unidos. A portaria, assinada em 17 de março de 2026 e publicada no Diário Oficial da União três dias depois, estabelecia a troca pela delegada Tatiana Alves Torres.

Portaria não foi efetivada antes da expulsão

No entanto, a substituição não foi concretizada antes que o governo americano expulsasse Carvalho do território dos Estados Unidos. O delegado brasileiro teve participação ativa na prisão do ex-diretor da Abin e ex-deputado federal Alexandre Ramagem, ocorrida no dia 13 de abril, e foi mandado de volta ao Brasil em 20 de abril sob acusação de manipulação do sistema de imigração norte-americano.

A portaria previa em seu artigo 3º que a substituição "entra em vigor na data de publicação", ou seja, 20 de março de 2026. A reportagem questionou a Polícia Federal sobre os motivos da não efetivação da troca e por que Carvalho continuava em solo americano após essa data, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

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Trajetória do delegado na função

Marcelo Ivo de Carvalho havia sido nomeado para exercer a função de oficial de ligação junto ao ICE em Miami em março de 2023, com previsão inicial de permanência por dois anos. Em março de 2025, uma portaria assinada por William Marcel Murad, então substituto de Andrei Rodrigues, prorrogou sua permanência na função por mais um ano, estendendo a missão até agosto de 2026.

"As portarias que estabelecem essas movimentações não mencionam quaisquer motivos que não os de ordem técnica da Polícia Federal", conforme destacado nos documentos oficiais.

Contexto da prisão e reações

Quando Ramagem foi preso, Andrei Rodrigues afirmou que a detenção ocorreu por conta de um acordo de cooperação entre as polícias brasileira e americana, caracterizando o ex-parlamentar como foragido da Justiça brasileira por condenação por tentativa de golpe de estado. Aliados bolsonaristas de Ramagem contestaram a versão oficial, alegando que a prisão teria sido motivada por uma infração de trânsito de pouca importância.

Ramagem, que estava nos Estados Unidos com visto de turista vencido, havia solicitado asilo político ao governo Trump - pedido que permanecia pendente de análise quando ocorreu sua prisão. Dias após a detenção, ele foi solto e retornou para casa.

Tensão diplomática e reciprocidade

O Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental dos Estados Unidos anunciou a expulsão do delegado brasileiro sem citar nomes, justificando que "nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar tanto pedidos formais de extradição quanto prolongar caças às bruxas políticas em território dos EUA".

Durante agenda na Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou o caso, afirmando que "se for constatado que houve abuso de autoridade por parte dos Estados Unidos, o Brasil poderá adotar medidas semelhantes contra policiais americanos em solo nacional, com base nas regras de reciprocidade".

O Itamaraty informou que ainda não havia sido formalmente comunicado sobre a deliberação norte-americana quando procurado pela reportagem. O caso expõe tensões nas relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos envolvendo cooperação policial e questões de imigração.

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