CNJ aplica aposentadoria compulsória a desembargador que libertou chefe do PCC
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) puniu, nesta terça-feira (10), o então desembargador Divoncir Schreiner Maran com aposentadoria compulsória. A decisão ocorre após a conclusão de um processo administrativo disciplinar que investigou a concessão de prisão domiciliar a Gerson Palermo, reconhecido como chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC). A medida judicial, posteriormente anulada, permitiu que Palermo deixasse um presídio federal de segurança máxima em 2020, sob a alegação de problemas de saúde que, segundo o CNJ, não foram comprovados por laudos médicos.
Filha do criminoso se torna assistente de acusação no processo
Em um desdobramento marcante do caso, a Justiça autorizou que Gabrielly Sanches Palermo, filha de Gerson Palermo, atue como assistente de acusação no processo criminal contra o próprio pai. Ela foi vítima de um sequestro e extorsão planejados por Palermo, que teria organizado o crime para exigir o pagamento de uma suposta dívida de aproximadamente 100 mil dólares, guardada por seu ex-sogro. O marido de Gabrielly, Weslley Henrique Sorti de Almeida, também requereu habilitação como assistente de acusação.
Segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), o sequestro ocorreu em outubro de 2025, com a vítima mantida em cativeiro na casa de Reinaldo Silva de Farias, apontado como cúmplice. Durante o período, Gabrielly relatou ter sofrido agressões graves, incluindo chutes, socos, puxões de cabelo e coronhadas de arma de fogo na cabeça, além de permanecer amarrada. Os criminosos enviaram uma foto dela nessa condição para pressionar a família pelo pagamento do resgate, que não chegou a ser efetuado.
Resgate e prisão de suspeito
A vítima foi localizada e liberada pela polícia no dia 25 de outubro, no bairro Moreninhas, em Campo Grande. Durante as buscas, os agentes prenderam Reinaldo Silva de Farias, de 34 anos, e apreenderam armas de fogo, celulares e um veículo utilizado no crime. Inicialmente, ele foi preso em flagrante por extorsão mediante sequestro, posse de arma de fogo de uso restrito e ameaça, mas posteriormente recebeu liberdade provisória com tornozeleira eletrônica e restrições de distância.
Trajetória criminal de Gerson Palermo
Gerson Palermo possui um extenso histórico criminal, com condenações que somam quase 126 anos de prisão. Ele foi condenado a 66 anos e 9 meses pelo sequestro de um Boeing 727 da Vasp em agosto de 2000, quando a aeronave foi desviada para Porecatu, no Paraná, e a quadrilha roubou cerca de R$ 5,5 milhões do Banco do Brasil. Anos depois, em 2017, foi apontado como líder de um esquema internacional de tráfico de drogas na Operação All In da Polícia Federal, que apreendeu 810 quilos de cocaína e resultou em uma condenação adicional de 59 anos.
Após cumprir pena em regime fechado no presídio federal de segurança máxima de Campo Grande, Palermo foi solto em 2020 pela decisão do desembargador Divoncir Schreiner Maran. Pouco depois, rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu, permanecendo foragido e na lista dos mais procurados do Sistema Único de Segurança Pública.
Investigações e punição ao magistrado
O CNJ concluiu que o desembargador violou os deveres da magistratura ao conceder a prisão domiciliar sem comprovação médica adequada, extrapolando os limites da atuação judicial. O relator do processo, conselheiro João Paulo Schoucair, destacou que investigações da Polícia Federal identificaram movimentações financeiras incompatíveis com a renda declarada do magistrado, reforçando as suspeitas de irregularidades.
Enquanto a decisão judicial é punida, Gerson Palermo continua foragido, evidenciando as falhas no sistema de justiça que permitiram que um criminoso de alto impacto, condenado a décadas de prisão, conseguisse escapar novamente. O caso ressalta a complexidade do combate ao crime organizado e a importância da responsabilização de agentes públicos envolvidos em atos ilícitos.



