Capitão da PM de Roraima enfrenta investigação por envolvimento em assassinato de casal
O governo do estado de Roraima determinou a abertura de um Conselho de Justificação para investigar a conduta ética e moral do capitão da Polícia Militar Helton John Silva de Souza. O policial militar é suspeito de participação no assassinato do casal de agricultores Flávia Guilarducci e Jânio Bonfim, crime ocorrido em abril de 2025 no interior do estado.
Decreto governamental e procedimento administrativo
O decreto que instituiu o procedimento foi assinado pelo governador Antonio Denarium, do Progressistas, e publicado no Diário Oficial do Estado nesta terça-feira. A medida considera não apenas a prisão do capitão por suspeita de envolvimento no crime, ocorrida em maio de 2025, mas também denúncias de assédio, peculato e intimidação.
O Conselho de Justificação tem como objetivo avaliar se Helton John possui condições de permanecer na corporação policial e deverá concluir seus trabalhos em até 30 dias. Para conduzir a análise, foi formada uma comissão composta por três oficiais:
- Tenente-coronel Nelson Luiz Camilo de Oliveira (presidente)
- Major Josué Pereira de Andrade Sousa (interrogante e relator)
- Major Simão Pedro Dutra Ribeiro (escrivão)
Defesa do capitão e detalhes do caso
Em nota enviada à imprensa, o advogado do capitão, Diego Rodrigues, afirmou que seu cliente "confia plenamente em sua inocência" e que a abertura do conselho de justificação é um ato natural do processo. O defensor destacou que o policial terá nova oportunidade para demonstrar que não tinha conhecimento nem participou do homicídio.
Helton John Silva de Souza, de 48 anos, ocupava no momento do crime a função de coordenador da equipe de segurança do governador de Roraima. Seis dias após o ataque ao casal, ele foi afastado dessa posição e colocado à disposição da Polícia Militar.
Gravação crucial e conexões perigosas
A investigação da Polícia Civil revelou que o capitão é amigo do produtor rural Caio de Medeiros Porto, um dos principais investigados pelo assassinato do casal. Segundo as autoridades, Helton John estava com os executores no dia do crime, informação que surgiu de uma gravação feita por Flávia momentos antes de ser baleada.
Na gravação, que capturou conversas e seis tiros em apenas 15 segundos, uma das vozes identificadas pela investigação seria a do próprio capitão. Este registro audiovisual tornou-se peça fundamental para a identificação dos envolvidos no crime brutal.
Comportamento pós-crime e ocultação de evidências
Após o assassinato, o capitão retornou para casa, contou à esposa que havia acontecido "algo grave que vai se resolver", tomou banho, teve uma crise de choro, fez uma oração e foi jogar futevôlei. Durante depoimento em junho de 2025, ele confessou ter escondido em sua própria residência a arma utilizada no crime.
Investigadores localizaram a arma escondida no forro do banheiro da casa do policial. Helton John também revelou que, no dia do crime, ligou para o então comandante-geral da corporação, coronel Miramilton Goiano, e recebeu orientação para se desfazer de seu celular.
Contexto familiar e incidente recente
Em fevereiro de 2026, a filha do capitão, Amanda Kathryn Monteiro de Souza, de 19 anos, envolveu-se em um acidente de trânsito que resultou na morte da técnica em enfermagem Patricia Melo da Silva, de 53 anos, em Boa Vista. A jovem dirigia uma caminhonete que colidiu com a moto da vítima.
No local do acidente, Amanda não realizou teste do bafômetro e foi liberada. Uma testemunha relatou à Polícia Civil ter ouvido a jovem afirmar que era "filha de capitão da polícia", levantando questionamentos sobre tratamento diferenciado.
Detalhes do crime contra o casal de agricultores
O assassinato ocorreu em 23 de abril de 2025, na vicinal do Surrão, no município de Cantá. Quatro homens invadiram a propriedade onde viviam Flávia Guilarducci e Jânio Bonfim. Jânio faleceu no mesmo dia do ataque, enquanto Flávia permaneceu internada em estado grave no Hospital Geral de Roraima até vir a óbito.
A motivação do crime, conforme apurou a Polícia Civil, foi uma disputa por terras. Caio de Medeiros Porto exigia que Jânio interrompesse a construção de uma cerca, alegando que a obra avançava sobre suas propriedades. A construção ocorria nos fundos do terreno de Jânio, localizado na Gleba Tacutu.
A gravação feita por Flávia antes do ataque registrou não apenas as vozes dos agressores, mas toda a discussão que precedeu a violência. Este material foi determinante para a identificação dos suspeitos, incluindo o empresário Caio, que segue foragido, e o capitão Helton John.
O capitão foi preso em 10 de maio de 2025 e liberado cinco meses depois, em 22 de outubro do mesmo ano. Agora, além do processo criminal, enfrenta o procedimento administrativo que pode definir seu futuro na Polícia Militar de Roraima.



