Assassinos de ialorixá que desafiou tráfico na Bahia são condenados a até 40 anos de prisão
Assassinos de ialorixá condenados a até 40 anos na Bahia

Justiça histórica: condenação por assassinato de ialorixá que enfrentou o tráfico na Bahia

O Tribunal do Júri de Salvador proferiu uma sentença histórica na última terça-feira, 13 de abril de 2026, condenando os responsáveis pelo brutal assassinato da ialorixá e líder quilombola Maria Bernadete Pacífico Moreira, conhecida como Mãe Bernadete. O crime, que chocou o Brasil e ganhou repercussão internacional, ocorreu em agosto de 2023 na comunidade de Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, região metropolitana de Salvador.

Detalhes da condenação e do crime

Arielson da Conceição Santos, identificado como executor direto do assassinato, foi sentenciado a 40 anos, 5 meses e 22 dias de prisão. Já Marílio dos Santos, conhecido como "Maquinista" e apontado como mandante do crime, recebeu pena de 29 anos e 9 meses de reclusão. Ambos foram condenados por homicídio qualificado com várias agravantes, incluindo motivo torpe, emprego de meio cruel e uso de arma de uso restrito.

Segundo as investigações da Operação Pacific, conduzida pela Polícia Civil com apoio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas), Mãe Bernadete foi alvejada com 25 tiros de arma de fogo em diversas partes do corpo. O crime aconteceu dentro de sua própria casa, na sede da associação quilombola, onde estavam presentes três de seus netos, com idades entre 12 e 18 anos.

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Motivação do crime e impacto na comunidade

O Ministério Público da Bahia esclareceu que a líder religiosa foi executada por se posicionar firmemente contra a expansão do tráfico de drogas no quilombo. Mãe Bernadete havia exigido a retirada de uma barraca de propriedade de Marílio dos Santos que era utilizada para o comércio ilegal de entorpecentes, demonstrando coragem incomum ao desafiar estruturas criminosas estabelecidas na região.

O promotor Raimundo Moinhos, que atuou no caso, expressou satisfação com o resultado: "Uma sensação de dever cumprido, de ter o Ministério Público atuado efetivamente pela defesa da vida e de termos conseguido a justiça que Mãe Bernadete e a família merecem". Ele destacou ainda o trabalho de investigação de excelência realizado pela Polícia Civil e pela atuação dos promotores do Gaeco.

Repercussão e reações

Jurandir Pacífico, filho da vítima, descreveu o processo como "dois dias cansativos", mas ressaltou: "O que fica é a sensação da justiça sendo feita. Foi doloroso, um crime tão brutal que abalou não só a Bahia, mas o Brasil e o mundo. No final deu tudo certo. Se fez justiça".

O crime contra Mãe Bernadete alcançou proporções internacionais, com a então ministra Rosa Weber, à época presidente do Conselho Nacional de Justiça e do Supremo Tribunal Federal, declarando poucos dias após o assassinato: "Eu não esquecerei, e o CNJ continuará se empenhando pelo esclarecimento desse bárbaro assassinato". Curiosamente, a magistrada aposentada e a líder quilombola haviam se encontrado em 26 de julho de 2023, apenas algumas semanas antes do crime fatal.

Próximos passos processuais

O Ministério Público informou que outros três denunciados ainda serão submetidos a julgamento:

  • Sérgio Ferreira de Jesus
  • Josevan Dionísio dos Santos
  • Ydney Carlos dos Santos de Jesus

Estes indivíduos terão seus casos analisados em futuras sessões do Tribunal do Júri, completando o ciclo de responsabilização por um crime que representou não apenas um ataque a uma pessoa, mas um golpe contra toda uma comunidade quilombola e sua resistência cultural e social.

A condenação dos assassinos de Mãe Bernadete marca um capítulo importante na luta contra a violência que atinge lideranças comunitárias e religiosas no Brasil, especialmente aquelas que ousam confrontar o poder do crime organizado em territórios historicamente vulnerabilizados.

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