Polícia do Rio liga armas de homicídios ao jogo do bicho e máfia dos cigarros ilegais
Armas de homicídios ligadas ao jogo do bicho e máfia dos cigarros

Exames balísticos conectam armas de homicídios a contravenção e máfia no Rio

Análises de confrontos balísticos realizadas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro trouxeram à tona uma rede criminosa preocupante. As investigações revelaram que armas utilizadas em uma série de homicídios possuem ligações diretas com casos relacionados ao jogo do bicho e à máfia dos cigarros ilegais que atua no estado.

Grupo de extermínio e prisão de Adilsinho

A polícia fluminense investiga atualmente se pelo menos vinte crimes violentos estão associados à atuação de um suposto grupo de extermínio. Esse grupo estaria ligado ao contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, que foi preso na última quinta-feira em Cabo Frio, na Região dos Lagos. Entre os crimes analisados, estão homicídios, tentativas de assassinato e até um sequestro.

A Delegacia de Homicídios da Capital conduziu uma minuciosa análise de onze homicídios e uma tentativa de homicídio ocorridos entre maio de 2022 e outubro de 2025. Os exames periciais confirmaram padrões alarmantes de reutilização de armas em múltiplos crimes.

Fuzil utilizado em sete execuções

Um mesmo fuzil foi identificado como a arma utilizada em sete execuções distintas entre os anos de 2022 e 2023. As vítimas incluem:

  • Marco Antônio Figueiredo Martins, o Marquinhos Catiri
  • Alexsandro José da Silva, o Sandrinho, morto junto com Catiri
  • O policial civil João Joel de Araújo
  • Tiago Barbosa
  • O policial penal Bruno Kilier
  • Fernando Marcos Ferreira Ribeiro
  • Cabo da PM Diego dos Santos Santana

Além disso, a mesma arma foi empregada na tentativa de assassinato de Luiz Henrique de Souza Waddington, filho de um conhecido bicheiro.

Pistola .40 em assassinatos separados

Os peritos também identificaram que uma pistola calibre .40 foi utilizada em dois assassinatos com mais de um ano de diferença entre eles. Em junho de 2024, Antônio Gaspazianne, proprietário do bar Parada Obrigatória, em Vila Isabel, foi morto com vinte tiros desferidos por dois homens encapuzados. O motivo do crime, segundo as investigações, era uma desconfiança de que Antônio estivesse desviando recursos financeiros provenientes de máquinas caça-níqueis, dinheiro que deveria ser repassado para a contravenção.

Em outubro de 2025, o policial civil Carlos Queiroz foi executado na porta de sua residência em Piratininga, Niterói, enquanto realizava uma tarefa doméstica rotineira: levar o lixo para fora de casa. Cinco suspeitos foram presos por esse crime. Entre eles, José Gomes da Rocha Neto, conhecido como Kiko, era apontado por investigações da Polícia Civil e da Polícia Federal como um dos seguranças pessoais de Adilsinho. Kiko já havia sido investigado anteriormente por sua suposta participação em uma milícia e por um homicídio ligado à contravenção no estado do Maranhão.

Expansão da máfia dos cigarros ilegais

Adilsinho, além de ser identificado como bicheiro com pontos de jogo do bicho e máquinas caça-níqueis distribuídas pelas Zonas Norte, Sul e Centro do Rio, é apontado pelas autoridades como o chefe de uma poderosa máfia de cigarros ilegais. Essa organização criminosa atua não apenas no Rio de Janeiro, mas também se expande para outros estados brasileiros. Estima-se que o grupo controle quarenta e cinco das noventa e duas cidades do estado do Rio, consolidando seu poder frequentemente através do uso da violência armada.

Adilson Oliveira Coutinho Filho possuía um mandado de prisão relacionado às mortes de Marquinhos Catiri e Alexsandro, foi formalmente indiciado pela morte do policial penal Bruno Kilier e é investigado como suposto mandante dos assassinatos de Tiago da X6 e do policial civil João Joel Araújo. Ele também figura como investigado no caso da morte de Fernando Marcos Ribeiro.

Audiência de custódia e transferência

Nesta sexta-feira, Adilsinho passou por uma audiência de custódia, na qual a magistrada decidiu pela manutenção de sua prisão preventiva. Após a audiência, ele foi conduzido ao aeroporto e embarcou em um voo com destino a um presídio federal, atendendo a um pedido formal da própria Polícia Federal. Adilson foi transferido para a capital federal, Brasília.

Fuga anterior e defesa

Um vídeo obtido pelo RJ2 mostra o momento em que Adilsinho conseguiu escapar de uma operação conjunta das polícias Federal e Civil, realizada há quase um ano, em maio de 2025. As imagens mostram Adilsinho vestindo uma blusa azul clara dentro de um condomínio residencial no bairro do Itanhangá, na Zona Sudoeste do Rio. Seu segurança, o policial militar Diego Lima – também preso na quinta-feira –, aparece sem camisa. Eles circulam repetidamente por um mesmo trecho do condomínio, passam por uma guarita e por um veículo de seguranças particulares, com Adilsinho cumprimentando um dos indivíduos presentes. Próximo ao final de uma rua sem saída, Adilson conversa brevemente com uma pessoa do outro lado de um muro e, em seguida, segue por uma trilha em uma área de bosque. Pouco tempo depois, seguranças aparecem no local, aparentemente em busca de Adilsinho e do PM Diego Lima. Por volta das 22h50, ambos saem do condomínio e entram em um automóvel de cor preta. De acordo com informações da Polícia Federal, Adilsinho conseguiu escapar da ação dos agentes em três ocasiões distintas nos últimos anos, antes de sua captura definitiva.

O advogado de defesa de Adilsinho, Ricardo Braga, divulgou uma nota oficial contestando a narrativa das autoridades. "As imagens da prisão de Adilson Oliveira Coutinho Filho evidenciam que tudo transcorreu dentro da mais absoluta tranquilidade, fato que desconstrói a narrativa de periculosidade atribuída ao empresário", afirmou. "A defesa reafirma, por fim, que o empresário confia na justiça e demonstrará sua inocência quanto a todos os fatos que lhe são injustamente imputados".