Investigação apura tortura de calouros em alojamento de Etec no litoral paulista
A Polícia Civil de São Paulo está investigando três alunos da Escola Técnica Estadual (Etec) Agrônomo Narciso de Medeiros, localizada em Iguape, no litoral sul do estado, por acusações graves de tortura contra calouros em um alojamento estudantil. Segundo relatos de familiares das vítimas, os adolescentes eram submetidos a um "juramento de trote" que envolvia agressões físicas e humilhações, com todas as ações sendo registradas em vídeo pelos suspeitos.
Detalhes chocantes das agressões
Os três alunos indiciados, com idades de 15, 16 e 18 anos, cursavam o segundo e terceiro ano do Ensino Médio e atuavam como uma espécie de liderança no alojamento, que possui capacidade para 28 estudantes. De acordo com os depoimentos, eles submetiam pelo menos cinco calouros a sessões de violência durante a semana, utilizando instrumentos como:
- Alicates para causar ferimentos
- Cintos e pedaços de cano para agressões
- Tapas e outros tipos de violência física
As vítimas eram proibidas de relatar os acontecimentos aos funcionários da escola, sob ameaça de represálias. A situação só veio à tona quando a família de um dos adolescentes notou um ferimento de alicate em seu peito, após ele retornar para casa em um final de semana.
Descoberta e reação das autoridades
Ao visitar o alojamento para esclarecer a situação, uma parente da vítima encontrou pelos pubianos espalhados na cama como forma de punição, descobrindo também que outros menores estavam sendo torturados. A Polícia Militar foi acionada e encaminhou os envolvidos à Delegacia de Iguape, onde o caso foi registrado inicialmente como lesão corporal e vias de fato.
Durante as diligências policiais, foram apreendidos:
- Celulares dos três indiciados com vídeos das agressões
- Dois alicates e uma faca utilizados nas torturas
- Indícios de que havia drogas escondidas no alojamento
Em um dos vídeos encontrados, um dos menores aparece dizendo "já sofri demais hoje" a um dos investigados, recusando-se a ir ao local onde ocorriam as agressões. As torturas deveriam terminar apenas após o "Dia da Libertação" estabelecido no juramento para 18 de março.
Posicionamento da instituição de ensino
Em nota publicada nas redes sociais, a Etec Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros afirmou repudiar veementemente os fatos e criou um comitê de crise para lidar com a situação. "Toda unidade escolar foi fortemente atingida pelas notícias. A surpresa e a indignação nos paralisaram por um momento", declarou a instituição.
O diretor Mauro Sérgio Adinolfi assinou um comunicado informando que a primeira medida foi o afastamento imediato dos três alunos envolvidos, que já não permanecem no convívio escolar. A escola acompanha a apuração dos fatos para "analisar todas as questões legais, no intuito de solucionar o caso e restabelecer a ordem no âmbito escolar".
Envolvimento de outras instituições
O Centro Paula Souza (CPS), que administra a unidade, informou que apura rigorosamente os fatos para aplicação das medidas legais cabíveis e se coloca à disposição das autoridades para colaborar com as investigações. Segundo o CPS, os alunos envolvidos seguirão com atividades remotas até que os trâmites legais sejam concluídos.
O Conselho Tutelar de Iguape também foi acionado e destacou que acompanha a situação, atuando para garantir medidas de proteção aos adolescentes, acionando os responsáveis e assegurando que seus direitos sejam preservados. Apenas uma das vítimas é moradora da cidade, segundo o órgão, que encaminhará o jovem para acompanhamento da rede de proteção.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que diligências estão em andamento visando o esclarecimento dos fatos e as responsabilizações necessárias. Familiares das vítimas, que preferiram não se identificar, expressaram sua decepção: "Depositamos a nossa confiança nessa escola, para depois termos esse resultado que estamos tendo", lamentou um deles.
