Justiça do Rio autoriza advogada argentina acusada de racismo a deixar o Brasil após caução
Advogada argentina acusada de racismo pode deixar Brasil após caução

Justiça do Rio autoriza advogada argentina acusada de racismo a deixar o Brasil após caução

A Justiça do Rio de Janeiro concedeu autorização para que a advogada argentina Agostina Páez, ré por injúria racial, deixe o território brasileiro e retorne ao seu país de origem. A decisão, expedida pelo desembargador Luciano Silva Barreto, da Oitava Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, está condicionada ao pagamento de uma caução equivalente a 60 salários mínimos, aproximadamente R$ 97 mil.

Condições para a liberação

O valor da caução servirá como garantia para o eventual pagamento de multas e reparação de danos às vítimas. Além disso, a ré deverá manter endereço e contatos atualizados no Brasil, comprometendo-se a atender todas as convocações da Justiça brasileira mesmo estando na Argentina. A decisão ainda será submetida ao colegiado do tribunal para homologação final.

Os fatos que levaram à acusação

Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), no dia 14 de janeiro deste ano, Agostina Páez, de 29 anos, dirigiu ofensas racistas a funcionários de um bar em Ipanema. As agressões incluíram referências pejorativas utilizando a palavra "negro", o termo "mono" (que em espanhol significa macaco) e a imitação de gestos do animal. Os episódios foram registrados em vídeo que posteriormente viralizou nas redes sociais.

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A promotoria afirma que a advogada repetiu as ofensas para outros dois funcionários, caracterizando três crimes de injúria racial. Após a divulgação do vídeo, a Polícia Civil iniciou investigação que resultou na prisão preventiva de Agostina em 6 de fevereiro, embora ela tenha sido solta na mesma noite.

Evolução do processo judicial

Desde sua prisão inicial, a ré vinha cumprindo medidas cautelares que incluíam retenção de passaporte, proibição de sair do país e uso de tornozeleira eletrônica. No entanto, com o encerramento da fase de instrução do processo, o desembargador relator entendeu que não mais se justificava a manutenção dessas restrições.

O magistrado destacou que tanto o Ministério Público quanto a assistência de acusação se manifestaram favoravelmente à liberação da ré, desde que houvesse garantia financeira para eventual indenização às vítimas. O MPRJ chegou a sugerir indenização de até 120 salários mínimos (cerca de R$ 190 mil) pelos danos morais causados.

Fundamentação da decisão

Na decisão, o desembargador Luciano Silva Barreto considerou vários fatores:

  • A acusada é primária (sem antecedentes criminais)
  • Tem profissão definida como advogada
  • Demonstrou colaboração com o processo
  • Apresentou manifestação pública de arrependimento
  • Acordos internacionais entre Brasil e Argentina permitem, em caso de condenação, o cumprimento da pena no país de origem

O magistrado argumentou que manter as restrições após o fim da fase de instrução configuraria constrangimento ilegal, uma vez que as medidas cautelares devem ser proporcionais e vinculadas às necessidades processuais.

Arrependimento e desculpas públicas

Durante audiência realizada este mês, Agostina Páez pediu desculpas formalmente aos três funcionários do bar pelas ofensas racistas. Sua defesa alegou que a advogada agiu por desconhecimento da legislação brasileira sobre racismo e que demonstrou "arrependimento sincero" pelas atitudes.

A advogada Carla Junqueira, que representa Agostina, afirmou que sua cliente "reconhece que errou e reagiu de forma inadequada diante de uma situação de conflito". A defesa argumenta que as penas podem ser substituídas por outras medidas, como prestação de serviços comunitários.

Posicionamento do Ministério Público

A promotora Fabíola Tardin Costa, responsável pelo caso, explicou que o foco da acusação está mais voltado para a reparação dos danos às vítimas e para o respeito à legislação brasileira de combate ao racismo do que propriamente para o encarceramento da ré.

"O foco da minha acusação é demonstrar que nosso país está comprometido com o combate ao racismo e com o respeito aos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, sem deixar de considerar a importância da garantia do direito reparatório à vítima", afirmou a promotora.

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Situação atual da ré

Agostina Páez está há aproximadamente dois meses no Rio de Janeiro, período durante o qual alegou estar sem renda e ter recebido ameaças. Com a decisão do desembargador, todas as medidas cautelares anteriormente impostas serão revogadas assim que for efetuado o pagamento da caução.

O juiz responsável pelo caso aceitou que a defesa apresente suas alegações finais por escrito e deve definir a sentença do processo nos próximos dias. A decisão sobre a possibilidade de cumprimento de pena na Argentina ainda dependerá do desfecho final do processo.