Família enfrenta 15 anos de luta por justiça após morte de professora na Serra Gaúcha
Quinze anos se passaram desde que a professora Cleusa Borges do Amaral, então com 46 anos, foi encontrada morta dentro de sua residência em São Francisco de Paula, na Serra Gaúcha. O caso, ocorrido em fevereiro de 2011, permanece sem uma definição final na Justiça, enquanto a família da vítima continua sua busca incansável por esclarecimentos e condenação.
O marido na época, Mário Luiz Benetti, sempre sustentou que Cleusa teria cometido suicídio com três tiros – versão que sua defesa mantém até os dias atuais. A família, porém, nunca aceitou essa explicação e acredita tratar-se de homicídio.
Luto transformado em missão para mãe de 87 anos
Terezinha Donado do Amaral, mãe da professora, transformou seu luto em uma missão de vida. Aos 87 anos, ela segue cobrando um desfecho para a morte da filha: "Eu não acredito que uma mãe vai se esquecer um dia que perdeu uma filha assassinada e não ter resposta. Faz 15 anos e a gente não tem resposta nenhuma. Eu quero justiça", declara com emoção.
Familiares relatam que Cleusa já demonstrava sofrimento dentro do relacionamento. Carolina Borges do Amaral Bergmann, irmã da vítima, recorda uma conversa reveladora: "Ela disse assim: ‘vocês não sabem o que eu tô passando aqui dentro de casa’. A gente perguntou pra ela, e ela repetia. Então é muito triste. A gente não vai trazer ela de volta".
Júri controverso e absolvição por clemência
Após anos de tramitação processual e denúncia do Ministério Público por homicídio, Benetti finalmente foi levado a júri popular em agosto de 2025, quando já tinha 62 anos. O resultado chocou a família: os jurados reconheceram que ele atirou e foi responsável pela morte, mas decidiram absolvê-lo por clemência.
Nesse tipo de decisão, os jurados podem reconhecer a materialidade do crime, mas optam por perdoar o réu por razões consideradas humanitárias ou de piedade. Na prática, o entendimento do conselho de sentença prevalece sobre as provas apresentadas durante o processo.
Para especialistas, decisões como essa revelam como percepções sociais ainda influenciam julgamentos de casos envolvendo violência contra mulheres. A promotora de Justiça Ivana Battaglin explica: "Os jurados representam a sociedade. E a sociedade ainda está impregnada desses valores que entendem que a mulher sempre tem culpa pelo que sofreu. Quando uma mulher sofre violência, muita gente ainda pergunta o que ela fez, se deu causa de alguma forma".
Novo capítulo judicial: júri anulado
No final de fevereiro deste ano, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul analisou recurso que questionava o resultado do júri. Durante a sessão, o advogado de defesa, José Antônio Paganella Boschi, reafirmou a tese de suicídio e sugeriu que familiares teriam interesse nos bens deixados pela vítima.
Os desembargadores decidiram, por unanimidade, anular o júri que havia absolvido o réu. Com isso, o caso deverá ser julgado novamente, embora ainda não haja data definida para o novo julgamento.
Para Terezinha, a decisão representa um avanço, mas não encerra a dor de anos de espera: "Minha neta diz: ‘vó, por que tu não sorri?’. E eu digo: 'vou sorrir do quê? Da desgraça de ter perdido minha filha?' Um bandido tirou a vida da minha filha e ainda foi absolvido".
A irmã de Cleusa resume o sentimento familiar após mais de uma década de processo: "Onde é que está a justiça, se faz 15 anos que nós não temos um resultado final para isso?"
Posicionamento da defesa
Em nota, o advogado José Antônio Paganella Boschi afirmou que o Tribunal de Justiça anulou o júri por questões formais relacionadas ao registro da tese de clemência na ata do julgamento. Segundo ele, o mérito da decisão dos jurados não foi analisado.
A defesa informou que apresentou embargos de declaração e que, caso a decisão seja mantida, pretende recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Sobre o caso, o advogado sustenta que:
- Não há prova concreta de homicídio
- Cleusa enfrentava quadro de depressão
- O Ministério Público teria reconhecido no julgamento que o motivo inicial da denúncia – suposta inconformidade do marido com desejo de separação – não ficou comprovado
- O réu prestou socorro à esposa
- A investigação teria apontado inconsistências na perícia
Boschi mantém firmemente que o caso se trata de suicídio, enquanto a família continua sua busca por justiça que já dura uma década e meia.
