Sobrevivente israelense do Hamas narra 505 dias de cativeiro em túneis de Gaza
Sobrevivente do Hamas conta 505 dias de cativeiro em túneis

Sobrevivente israelense do Hamas narra 505 dias de cativeiro em túneis de Gaza

Eliya Cohen, um israelense que passou 505 dias como refém do Hamas nos túneis subterrâneos de Gaza, está no Brasil para lançar o livro em que relata sua experiência traumática. Em entrevista exclusiva, ele descreve os horrores vividos, as estratégias que adotou para manter a esperança viva e o amor inabalável pela noiva, que foi fundamental para sua resiliência.

A rotina nos labirintos do terror

A rotina nos túneis era de tortura constante. Cohen quase não dormia, sendo sempre acordado por gritos e holofotes instalados a 50 metros abaixo da terra. Ele conta que viu o sol apenas uma única vez, quando foi transferido de um túnel para outro, disfarçado com um hijab. "Ficava acorrentado pelos pés, à base de um pedaço de pão pita por dia. Perdi a conta dos espancamentos. Em dado momento, fiquei sem forças até para andar. Mas você se obriga a seguir adiante", relata.

O momento em que achou que morreria

Em um dos episódios mais aterrorizantes, terroristas apareceram com um rifle e ordenaram que ele dissesse suas últimas palavras. "Obedeci, tendo certeza de que seria executado. Mas eles apenas riram. Quando vinham falar comigo, não sabia se era para dar comida, me insultar, me bater ou me matar. Para eles, eu era um nada", desabafa Cohen, destacando a desumanização que sofria diariamente.

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Estratégias para suportar o inferno

Para enfrentar o cativeiro, Cohen desenvolveu mecanismos psicológicos de sobrevivência. Pequenas conquistas, como um pedaço maior de pão ou duas horas de cochilo sem interrupções, traziam alívio momentâneo. Seu pensamento estava sempre voltado para a família, especialmente para a noiva, Ziv, que estava com ele no dia 7 de outubro e não foi capturada por ter se passado por morta em meio a uma pilha de corpos. "Toda vez que perdia a esperança, me apegava à ideia, mesmo remota, de revê-la. Também escrevia cartas mentais a Ziv, pedindo: 'Me mande forças. Vou sair daqui'", compartilha.

Isolamento total e descobertas pós-libertação

Dentro dos túneis, Cohen estava completamente isolado do mundo exterior. "Enquanto estive preso, não recebi nenhuma informação. Jamais imaginei que o movimento para a libertação dos reféns fosse tão grande e que tantas pessoas planeta afora soubessem da minha história", afirma. A maior alegria ao sair foi descobrir que Ziv estava viva e nunca havia desistido dele.

Reflexões sobre o governo israelense e a culpa dos sobreviventes

Sobre a atuação do governo israelense, Cohen pondera: "Difícil dizer. É muito importante tirar o Hamas de Gaza. Ao mesmo tempo, perdi companheiros que estavam comigo nos túneis e que tanto me ajudaram a manter a humanidade". Meses após ser solto, ainda sentia culpa pelos que haviam ficado para trás, a ponto de se recusar a fazer uma cirurgia para retirar estilhaços de bala de sua perna até que todos fossem resgatados. A trégua de outubro passado trouxe um alívio crucial.

Traumas persistentes e busca por superação

As memórias do cativeiro ainda o assombram. "Tenho gatilhos com as coisas mais banais. Quando levo um garfo de comida à boca, por exemplo, lembro da fome, das provocações dos terroristas", revela. Cohen faz acompanhamento psicológico e tenta encarar seus traumas, enfatizando que sobreviver foi uma vitória pessoal.

O significado do título do livro

O livro de Cohen tem como título "Mufawadat", que significa negociação em árabe. Ele explica: "O livro fala tanto dos meses de tratativas que levaram à minha libertação como da barganha diária por alimento, água, luz, banho e uso do banheiro. Mais difícil foi negociar com Deus, a quem pedia algum sinal que me guiasse, e comigo mesmo. Me questionava o tempo todo se deveria lutar pela vida. Que bom que não desisti dela".

A história de Eliya Cohen é um testemunho comovente de resiliência, amor e a incansável luta pela vida em meio às piores adversidades humanas, servindo como um alerta sobre os horrores do terrorismo e a força do espírito humano.

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