Príncipe Andrew pode pegar prisão perpétua? Entenda o crime de má conduta no Reino Unido
As acusações contra o filho da rainha Elizabeth II reacenderam o debate sobre o alcance de um dos crimes mais graves do direito britânico. A investigação aberta pela polícia britânica para apurar possível misconduct in public office (má conduta em cargo público) envolvendo o príncipe Andrew colocou em evidência um dos delitos mais severos do ordenamento jurídico do Reino Unido, que, em tese, pode levar à prisão perpétua.
O que é o crime de má conduta em cargo público?
De acordo com o Crown Prosecution Service (CPS), órgão responsável por autorizar acusações criminais na Inglaterra e no País de Gales, a má conduta em cargo público é um crime de common law. Isso significa que ele é baseado em precedentes judiciais históricos e não em uma lei específica aprovada pelo Parlamento. A infração só pode ser julgada por um tribunal de coroa (Crown Court), diante de juiz e júri.
Para que o delito seja configurado, é necessário demonstrar que o acusado ocupava um cargo público e que houve abuso ou negligência grave no exercício da função, de maneira deliberada ou com indiferença imprudente quanto à ilegalidade da conduta. Segundo o CPS, trata-se de fazer deliberadamente algo errado, sabendo que é errado ou sendo imprudentemente indiferente quanto a isso.
Quais cargos se enquadram nessa categoria?
A lista de cargos que podem se enquadrar nessa categoria é ampla e inclui:
- Juízes
- Policiais
- Oficiais de imigração
- Parlamentares
- Ministros
- Prefeitos
- Servidores civis
- Militares
- Bispos da Igreja Anglicana
No caso de Andrew, o foco está no período entre 2001 e 2011, quando ele atuou como enviado especial de comércio do Reino Unido. Essa função oficial lhe garantia acesso privilegiado a autoridades estrangeiras e informações sensíveis, o que amplia a gravidade das acusações.
Como a investigação ganhou força?
A investigação ganhou força após a divulgação, pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, de e-mails ligados ao financista Jeffrey Epstein, morto em 2019 enquanto aguardava julgamento por acusações de tráfico sexual. As mensagens sugerem que Andrew teria compartilhado relatórios de visitas oficiais a países como Hong Kong, Vietnã e Singapura, além de um suposto documento confidencial sobre oportunidades de investimento na reconstrução da província de Helmand, no Afeganistão.
Se ficar comprovado que informações sigilosas foram repassadas indevidamente durante o exercício de função pública, o caso pode se enquadrar como abuso de poder. A pena máxima prevista é prisão perpétua, embora sentenças desse tipo sejam raras e dependam da gravidade concreta dos atos.
Quais são os próximos passos legais?
Caso venha a ser formalmente detido, Andrew pode permanecer sob custódia policial por até 24 horas sem acusação, prazo que pode ser estendido judicialmente até o limite de 96 horas. Ele tem direito a assistência jurídica durante interrogatórios. Ao fim da investigação, caberá ao CPS decidir se há elementos suficientes para oferecer denúncia.
Andrew Mountbatten-Windsor, oitavo na linha de sucessão ao trono, é o primeiro membro sênior da realeza britânica moderna a enfrentar prisão sob investigação criminal dessa natureza. O caso amplia o desgaste institucional da família real e reacende o debate sobre responsabilidade pública e igualdade perante a lei no Reino Unido.
Até o momento, não há acusação formal nem condenação. A apuração está em estágio inicial, mas as implicações legais e políticas já estão sendo amplamente discutidas em âmbito nacional e internacional.



