Morte de líder do narcotráfico mexicano pode reconfigurar cenário criminal na América do Sul
A morte do poderoso chefe do narcotráfico Nemesio Oseguera, conhecido como "El Mencho", ocorrida esta semana no município de Tapalpa, no Estado de Jalisco, foi apresentada pelas autoridades do México e dos Estados Unidos como um duro golpe ao crime organizado internacional. No entanto, especialistas alertam que a operação conjunta pode gerar consequências inesperadas para o Brasil, com o potencial fortalecimento de facções locais.
Vácuo de poder pode ser ocupado por organizações brasileiras
Segundo Roberto Uchôa, ex-policial e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, a morte de El Mencho pode criar oportunidades para que facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), ocupem espaços anteriormente controlados pelo Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG).
"Na geopolítica criminal, não existe espaço vazio: ele é rapidamente preenchido", afirma Uchôa em entrevista à BBC News Brasil. "Se realmente ocorrer instabilidade no cartel mexicano, o PCC pode entrar como um fornecedor estável, que também tem acesso à origem da droga na América do Sul."
O especialista destaca que o PCC já atua em duas áreas estratégicas onde o CJNG pode enfraquecer: a exploração de rotas de drogas sintéticas e cocaína para a Europa, e a mineração ilegal de ouro na Amazônia, incluindo o comércio de mercúrio.
Estrutura organizacional diferenciada do PCC
Uchôa ressalta que o PCC possui uma estrutura mais descentralizada e profissionalizada em comparação com os cartéis mexicanos. Enquanto organizações como o CJNG dependem de lideranças carismáticas e centralizadas, o PCC funciona com um modelo empresarial que o torna mais resiliente a operações policiais.
"O PCC mostra um nível de resiliência e profissionalismo no crime muito maior", explica o pesquisador. "É uma organização muito mais resistente ao tipo de combate conhecido como kingpin, que consiste em eliminar ou isolar a liderança principal."
Esta diferença estrutural se reflete também nas estratégias de violência. Enquanto cartéis mexicanos frequentemente entram em confronto direto com o Estado, o PCC utiliza a violência de forma mais "utilitária" e calculada, regulando o que Uchôa chama de "mercado da violência".
Impactos na mineração ilegal e rotas internacionais
O Cartel Jalisco Nueva Generación mantinha operações significativas de mineração ilegal na Colômbia, Venezuela e Equador, além de controlar importantes rotas de drogas para a Europa. Com a possível fragmentação do cartel mexicano após a morte de seu líder, o PCC poderia fortalecer sua presença nestas atividades criminosas.
Uchôa detalha: "O PCC não atua diretamente no garimpo ilegal, assim como o Jalisco também não atuava diretamente. O que eles faziam era oferecer logística, lavagem de dinheiro e estrutura para que essas operações funcionassem. Se o cartel mexicano se fragmenta, as organizações envolvidas vão buscar um parceiro mais estável."
Contexto político internacional e pressão americana
A operação que resultou na morte de El Mencho ocorre em um contexto de crescente pressão do governo americano, liderado por Donald Trump, sobre países latino-americanos no combate ao narcotráfico. Uchôa critica o que chama de "hipocrisia americana" nesta abordagem.
"Os EUA têm um papel central nessa questão", afirma o especialista. "Além de serem o grande mercado consumidor, também são o grande fornecedor de armas para os cartéis mexicanos. É curioso que o governo Trump fale em atacar o tráfico, mas não combata o tráfico de armas que sai dos EUA para o México."
O pesquisador alerta ainda que a violência retaliatória do CJNG após a morte de seu líder - incluindo ataques a aeroportos e infraestruturas - pode fornecer ao governo americano o argumento necessário para classificar o cartel como organização terrorista, permitindo maior intervenção no México.
Desafios para as instituições brasileiras
Diante do possível fortalecimento do PCC, Uchôa questiona se as instituições brasileiras, como a Polícia Federal, estão preparadas para enfrentar este novo cenário. O especialista, que trabalhou por 20 anos na PF, reconhece os avanços da instituição, mas aponta limitações estruturais.
"Somos um país de 220 milhões de habitantes, que abriga uma das maiores organizações criminosas do mundo, e temos uma Polícia Federal com 13 mil profissionais", destaca. "Além disso, há problemas na legislação brasileira que dificultam muito o combate ao crime."
O pesquisador menciona especificamente as modificações recentes no projeto antifacção no Congresso Nacional, que retiraram ferramentas importantes para combater as camadas superiores do crime organizado, focando apenas no aumento de penas para a base operacional.
Mudanças no modelo de liderança criminal
Uchôa observa uma evolução nos modelos de liderança das organizações criminosas. Enquanto cartéis mexicanos ainda seguem o padrão de lideranças centralizadas e carismáticas - herdado de figuras como Pablo Escobar e Joaquín "El Chapo" Guzmán -, organizações brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho adotaram estruturas mais descentralizadas.
"Podemos estar observando uma mudança nesse modelo de liderança ditatorial", analisa o pesquisador. "Nenhuma das duas grandes organizações brasileiras que estão crescendo tem uma liderança ditatorial no estilo clássico - aquela figura que todo mundo quer prender e cuja captura desmantela tudo."
Esta diferença estrutural, segundo Uchôa, torna as organizações brasileiras mais adaptáveis e resistentes às operações policiais que visam neutralizar suas lideranças, representando um desafio ainda maior para as autoridades de segurança pública.



