Morte de líder do cartel mexicano desencadeia onda de violência e incertezas
A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como "El Mencho", durante uma operação militar no último domingo (22), mergulhou o México em um cenário de caos e violência. O líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), considerado o traficante mais procurado do país, foi eliminado pelas forças de segurança, desencadeando um período crítico de reorganização dentro da organização criminosa.
Ascensão meteórica do CJNG e domínio territorial
O CJNG controla atualmente a maior parte do fluxo financeiro, armamentista e de drogas no México. Em menos de uma década, o grupo transformou-se em uma máquina criminosa poderosa com ramificações por todo o continente americano, superando organizações historicamente dominantes como o Cartel de Sinaloa. Seu principal negócio concentra-se no envio de heroína, cocaína, metanfetamina e fentanil para os Estados Unidos, além de expandir operações para Europa e Ásia.
Segundo David Mora, analista sênior do International Crisis Group, o CJNG não é apenas o mais poderoso em termos militares e territoriais, mas também é "extremamente poderoso nos mercados criminosos em que opera", incluindo esquemas de extorsão em regiões agrícolas e de mineração mexicanas.
Origens violentas e consolidação do poder
O CJNG surgiu inicialmente como braço armado do Cartel de Sinaloa em 2007, com a missão de proteger áreas de influência em Jalisco. Criado por Ignacio Coronel, conhecido como "El Nacho", o grupo ganhou notoriedade como "Mata Zetas" devido aos violentos confrontos com o grupo rival Los Zetas. Após a morte de Coronel em 2010, "El Mencho" assumiu o controle, rompendo com os antigos aliados do Sinaloa e estabelecendo uma nova organização independente.
A trajetória de Oseguera Cervantes é marcada por uma ascensão incomum: começando nas camadas mais baixas da hierarquia criminosa, ele consolidou posição ao casar-se com uma das irmãs do líder do Cartel do Milênio. Antes disso, havia sido policial municipal após ser deportado dos Estados Unidos por envolvimento com tráfico de drogas.
Expansão agressiva e métodos violentos
O crescimento do CJNG surpreendeu especialistas pela rapidez:
- Em apenas cinco anos, destronou o poderoso Cartel dos Cavaleiros Templários em Michoacán
- Expulsou os Zetas do norte de Jalisco, conquistando território em Zacatecas
- Disputou o mercado de drogas sintéticas com o Cartel de Sinaloa
- Sequstrou temporariamente dois filhos de "El Chapo" Guzmán em Puerto Vallarta
Vários fatores contribuíram para essa expansão meteórica:
- Captura de líderes de cartéis rivais, criando vácuos de poder
- Recrutamento de especialistas em finanças e químicos para produção de drogas sintéticas
- Violência extrema como ferramenta de dominação territorial
- Diversificação para setores legais como pecuária, agricultura e construção para lavagem de dinheiro
Operação transnacional e lavagem de dinheiro sofisticada
O CJNG expandiu-se para mais de 40 países segundo a Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA). Seu braço financeiro, "Los Cuinis", liderado pelo cunhado de "El Mencho", supervisiona uma complexa rede de lavagem de dinheiro que utiliza:
- Redes chinesas de lavagem de dinheiro
- Corretoras de criptomoedas
- Contrabando de grandes quantias em dinheiro vivo
- Lavagem baseada no comércio internacional
O grupo também destacou-se pelo poder de corrupção sobre autoridades locais e alfandegárias, facilitando a entrada de substâncias químicas pelos portos da costa oeste mexicana.
Incertezas pós-"El Mencho" e riscos de violência prolongada
A morte do líder cria um cenário de incerteza sobre a sucessão dentro do cartel. Rubén Oseguera González, conhecido como "El Menchito" e considerado o segundo em importância, foi extraditado para os EUA em 2020, deixando um vácuo de liderança.
Segundo David Mora, "não há clareza absoluta — nem por laços de sangue, nem por laços familiares, nem por conexões — que nos permita ver quem será o próximo". O especialista alerta que processos de reorganização geralmente vêm acompanhados de tensão e violência, e que a mera decapitação de um cartel não significa sua extinção.
A onda de violência observada atualmente nas ruas mexicanas pode intensificar-se nos próximos dois meses conforme grupos rivais reajam às ações do CJNG e ocorram lutas internas pelo poder. O governo mexicano já enviou reforços militares para Jalisco, mas o cenário permanece extremamente volátil enquanto o cartel mais poderoso do país redefine sua hierarquia em meio ao caos.



