Mais de meia tonelada de ouro ilegal foi apreendida no Brasil em cinco anos
A Polícia Rodoviária Federal (PRF) interceptou um total impressionante de 503,26 kg de ouro ilegal em todo o território nacional entre os anos de 2021 e 2025. Este volume substancial revela uma crescente preocupação com o tráfico do minério, especialmente na região amazônica, onde as operações de fiscalização têm sido intensificadas.
Roraima emerge como epicentro das apreensões recentes
O estado de Roraima destaca-se de forma marcante nos dados, concentrando o maior volume de apreensões nos últimos anos. Foram 187,26 kg interceptados no período, com uma evolução significativa: de apenas 1,3 kg em 2023, saltou para 22,27 kg em 2024. Em 2025, a PRF apreendeu 163,69 kg somente em Roraima, um montante que supera o total apreendido em todo o Brasil em cada um dos quatro anos anteriores.
Este aumento expressivo foi impulsionado por uma operação emblemática em dezembro, quando 103 kg de ouro em barras foram encontrados com um empresário em Boa Vista. É importante ressaltar que os números podem ser ainda maiores, pois consideram apenas as ocorrências registradas pela PRF, excluindo ações de outras forças policiais.
Intensificação das operações na Amazônia Legal
O diretor de Operações da PRF, Marcus Vinicius de Almeida, atribui o crescimento das apreensões ao plano Amazônia: Segurança e Soberania, implementado a partir de 2023. Esta iniciativa combate crimes ambientais e organizações criminosas, reforçando ações de inteligência nos principais pontos de escoamento do minério.
"A gente acredita que Roraima é rota de saída do ouro no país. Seria uma 'rota mais fácil' para esquentar o ouro lá fora", afirmou Almeida. A Polícia Federal (PF) compartilha dessa avaliação, vinculando o crescimento ao reforço na fiscalização e à suspeita de que o estado tenha se tornado uma rota de escoamento para ouro ilegal originário de outras áreas da Amazônia.
Evolução das apreensões anuais
Os dados da PRF mostram uma oscilação anual, com uma queda em 2023 e um avanço expressivo a partir de 2024, culminando no volume recorde de 2025. A região Norte, especialmente Roraima e Pará, tem participação forte, além de registros relevantes em Minas Gerais e Mato Grosso em anos específicos.
- 2021: 66,6 kg apreendidos. Mato Grosso liderou com 27,7 kg.
- 2022: 151,8 kg. Minas Gerais concentrou 120 kg, cerca de 79% do total.
- 2023: 23,1 kg, o menor da série. Rio de Janeiro teve o maior registro.
- 2024: 48,08 kg. Roraima liderou com 22,27 kg.
- 2025: 213,68 kg, maior volume do período. Roraima concentrou 163,69 kg.
Roraima como rota estratégica para o escoamento ilegal
O delegado da PF em Roraima, Caio Luchini, explicou que criminosos aproveitam a localização fronteiriça do estado com a Venezuela e a Guiana para escoar ouro extraído ilegalmente em outras regiões. "Acreditamos que grande parte do ouro apreendido aqui não tem origem em Roraima. Muitos vêm de outros estados e são trazidos para cá por causa da fronteira", disse.
As investigações indicam o uso de rotas terrestres específicas, como a BR-401 e a BR-174, com criminosos frequentemente simulando viagens em família para burlar fiscalizações. Luchini destacou que, após avanços no combate ao garimpo ilegal em terras indígenas, a fiscalização foi intensificada nessas rotas terrestres.
Impacto do fim da presunção de boa-fé
Em abril de 2023, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu a aplicação da chamada "presunção da boa-fé" no comércio de ouro. O governo editou uma medida provisória extinguindo essa presunção e exigindo a emissão de nota fiscal eletrônica, enquanto um projeto de lei para um marco regulatório permanente segue em análise no Congresso.
Este marco legal contribuiu para o aumento das apreensões, exigindo maior transparência nas transações e dificultando a lavagem de ouro ilegal.
Rede criminosa por trás do garimpo ilegal
O procurador da República André Porreca enfatizou que o garimpo ilegal na Amazônia envolve uma extensa rede criminosa. "O garimpo ilegal não é só a extração de minério. Existe toda uma logística de transporte, lavagem de dinheiro, financiamento por organizações criminosas, fornecimento de combustível e até exportação do ouro para outros países", afirmou.
Porreca também alertou para um cenário de impunidade que favorece esses crimes altamente lucrativos, destacando a necessidade de punições mais rigorosas.
Destino do ouro apreendido e investigações
Todo o ouro apreendido é encaminhado ao Instituto Nacional de Criminalística da PF, em Brasília, onde passa por perícia no projeto Ouro Alvo. Esta iniciativa identifica o "DNA do ouro", rastreando a origem exata da extração, incluindo áreas de garimpo ilegal e terras indígenas.
"Com essa análise, conseguimos descobrir se o ouro veio de áreas de garimpo ilegal. É um trabalho técnico, demorado, mas essencial para combater a origem do crime", explicou Luchini. Além da apreensão emblemática de 103 kg, Roraima registrou outras quatro apreensões em um curto período, com barras frequentemente escondidas em compartimentos de veículos.



