Itália investiga 'safári humano' na Guerra da Bósnia: turistas pagavam para atirar em civis
Itália investiga 'safári humano' na Guerra da Bósnia (04.02.2026)

Itália investiga 'safári humano' na Guerra da Bósnia: turistas pagavam para atirar em civis

A promotoria de Milão, na Itália, colocou um idoso italiano sob investigação em meio a um inquérito sobre um suposto esquema de "safári humano" em Sarajevo durante a década de 1990. As informações foram confirmadas nesta quarta-feira (4) por duas fontes à agência Reuters, revelando detalhes chocantes sobre um dos episódios mais sombrios da Guerra da Bósnia.

Primeiro suspeito identificado

O homem investigado é um ex-caminhoneiro de 80 anos que reside próximo à cidade de Pordenone, no norte da Itália. Ele é o primeiro indivíduo a ser formalmente identificado na investigação, que teve início no ano passado. As autoridades italianas não divulgaram seu nome, mas ele enfrenta acusações graves de vários homicídios premeditados, agravados por motivos considerados obscuros e cruéis.

As fontes consultadas pela Reuters não especificaram se o suspeito é acusado de ter cometido os assassinatos diretamente ou se teria atuado no transporte e logística para os clientes envolvidos no esquema. A investigação busca esclarecer alegações de que estrangeiros pagavam quantias elevadas para atirar em civis durante o cerco de Sarajevo, capital da Bósnia, há três décadas.

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O macabro turismo de guerra

Em novembro de 2025, o Ministério Público de Milão abriu oficialmente uma investigação para apurar a participação de cidadãos italianos nos chamados "safáris humanos" durante o cerco à cidade de Sarajevo. Este foi um dos períodos mais sangrentos da Guerra da Bósnia, ocorrida entre 1992 e 1995.

Segundo as denúncias, os "turistas de guerra" chegavam a pagar entre 80 mil e 100 mil euros em valores atuais, o equivalente a aproximadamente R$ 490 mil a R$ 610 mil, às milícias sérvio-bósnias e a intermediários. Em troca, eram armados com fuzis e posicionados nas colinas ao redor da cidade, com autorização para atirar em alvos na capital bósnia, incluindo crianças e outros civis indefesos.

O esquema teria operado entre 1993 e 1995, com saídas organizadas às sextas-feiras a partir da cidade italiana de Trieste, localizada a cerca de 600 quilômetros de Sarajevo. Após as "excursões", os participantes retornavam às suas vidas normais, mantendo uma aparência respeitável perante a sociedade.

Investigação em andamento

Conforme reportagem publicada pelo jornal italiano "La Repubblica", o Ministério Público de Milão deve começar em breve a convocar testemunhas para interrogatório. A polícia conta com uma lista de colaboradores, incluindo um ex-oficial da inteligência bósnia que interrogou prisioneiros de guerra sérvios durante o conflito.

O caso ganhou força após uma investigação conduzida pelo repórter e escritor italiano Ezio Gavazzeni, que concedeu uma entrevista detalhada ao "La Repubblica". Gavazzeni revelou que ouviu relatos sobre o safári humano ainda nos anos 1990 e decidiu retomar as investigações após o lançamento do documentário esloveno "Sarajevo Safari" em 2023.

"Estamos falando de pessoas ricas, com reputação, empresários, que durante o cerco de Sarajevo pagavam para poder matar civis indefesos. Eles saíam de Trieste para a caçada humana. E depois voltavam e continuavam suas vidas normais, respeitáveis aos olhos de todos", declarou Gavazzeni ao jornal.

Contexto histórico: Cerco de Sarajevo

O Cerco de Sarajevo foi um dos episódios mais trágicos da Guerra da Bósnia, que ocorreu durante a dissolução da antiga Iugoslávia. Entre 5 de abril de 1992 e 29 de fevereiro de 1996, milícias sérvio-bósnias cercaram a capital da Bósnia, que tinha maioria bosníaca. A cidade, situada em um vale, ficou vulnerável a ataques de artilharia e franco-atiradores posicionados nas montanhas ao redor.

Durante os 1.425 dias de cerco, a população civil enfrentou condições desumanas:

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  • Falta crônica de água, luz e gás para aquecimento durante os rigorosos invernos.
  • Bloqueio total dos acessos à cidade, impedindo a entrada de alimentos, remédios e outros suprimentos essenciais.
  • Ataques indiscriminados de franco-atiradores contra civis, incluindo mulheres e crianças.

Estima-se que cerca de 13 mil militares foram posicionados ao redor de Sarajevo. Dados oficiais indicam que 5.434 civis foram mortos durante o cerco, sendo aproximadamente 1.500 crianças. Outras 15 mil pessoas ficaram feridas nos combates. A Unicef calcula que 65 mil das 80 mil crianças da cidade, ou 40% da população infantil, foram alvejadas diretamente por snipers.

Consequências jurídicas e memoriais

Os eventuais suspeitos envolvidos no esquema de "safári humano" podem ser indiciados por homicídio doloso agravado por crueldade e motivo torpe. A Guerra da Bósnia ficou marcada por crimes de guerra, limpeza étnica e episódios classificados como genocídio, como o massacre de Srebrenica.

Diversas autoridades sérvias foram julgadas e condenadas por crimes de guerra, incluindo o ex-presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosević, e o comandante das forças da República Srpska, Ratko Mladić. A guerra terminou oficialmente com os Acordos de Dayton, assinados em novembro de 1995, mas a estabilização completa da região só ocorreu em fevereiro do ano seguinte.

A investigação italiana representa um novo capítulo na busca por justiça para as vítimas do cerco de Sarajevo, destacando a importância de responsabilizar todos os envolvidos em atrocidades, independentemente do tempo decorrido ou de suas posições sociais.