Reportagem do Fantástico aluga imóvel no mesmo condomínio e monitora rotina de luxo de foragido acusado de crimes no Brasil
A equipe do programa Fantástico conseguiu acesso privilegiado à rotina de Luiz Eduardo Bottura, conhecido como o 'rei dos processos', que está foragido na Itália e é acusado de liderar uma complexa organização criminosa que se utiliza do sistema de Justiça para fraudes. A reportagem alugou uma casa no mesmo condomínio de alto padrão onde ele reside, em Selvazzano Dentro, cidade vizinha a Pádua e a poucos quilômetros de Veneza, permitindo acompanhar seus movimentos de perto durante uma semana inteira.
Vida de conforto e luxo enquanto responde a acusações graves
Bottura, que enfrenta inúmeras acusações no Brasil por supostamente chefiar esquemas para fraudar indenizações, coagir advogados, intimidar autoridades e movimentar processos forjados, leva uma vida cercada de conforto e luxo na Itália. A reportagem documentou que ele circula regularmente em carros de luxo, incluindo uma Maserati e outro veículo avaliado em aproximadamente 40 mil euros (cerca de R$ 240 mil), e reside em um condomínio exclusivo que oferece acesso a campo de golfe e outras comodidades de alto padrão.
Sua rotina diária é marcada por saídas regulares entre 11h e meio-dia, quase sempre acompanhado por uma mulher. Bottura mantém hábitos como passeios com seu cachorro e gato, visitas diárias à academia e refeições em um restaurante japonês. Durante a noite, ele costuma permanecer em casa, sem realizar atividades externas. Essa vida tranquila contrasta fortemente com as graves acusações que pesam contra ele no Brasil, onde o Ministério Público de São Paulo já solicitou sua prisão preventiva e a de sua esposa, que chegou a ser detida e atualmente usa tornozeleira eletrônica.
Vítimas relatam perdas milionárias e falsificação de documentos
A investigação do Fantástico também revelou histórias emocionantes de vítimas que afirmam ter sofrido enormes prejuízos financeiros e emocionais devido às ações de Bottura. Maria Matuzenetz, viúva que perdeu o marido, relatou ter sido enganada pelo investigado, que se apresentou como advogado. Segundo seu depoimento, Bottura a convenceu a transferir cerca de R$ 7 milhões recebidos como herança para uma conta no exterior.
"Eu não tenho paz, eu não tenho dinheiro, eu não tenho. Ele tirou tudo de mim. Eu não recebi um centavo do inventário por causa dele, porque ele é um capeta em forma humana", desabafou Maria. Documentos comprovam que o valor foi enviado para uma empresa aberta em seu nome no Uruguai e, posteriormente, transferido sem seu conhecimento para uma conta vinculada à esposa de Bottura. A viúva ainda afirma que sua assinatura foi falsificada em um termo onde supostamente renunciaria à herança em troca de apenas R$ 10 mil.
Esquema criminoso e tentativas de manipulação da Justiça
Promotores e delegados ouvidos pela reportagem afirmam que Bottura se especializou na produção de documentos falsos e no uso desses materiais para abrir processos que criam dívidas inexistentes. "Nós apuramos que ele deve ter participado de mais de 3 mil ações", declarou um promotor. "Em 327, foi condenado por litigância de má-fé, porque foi constatado pelo juízo que ele não estava jogando limpo", complementou. O delegado Fabiano Barbeiro o classificou como "o maior litigante serial do Brasil".
A prisão de Bottura na Itália ocorreu no ano passado, quando a polícia local identificou movimentações financeiras suspeitas, incluindo a compra de um veículo de meio milhão de reais. As autoridades solicitaram à Interpol a documentação necessária para efetuar a detenção. Após ser liberado, ele teve o passaporte apreendido e atualmente responde ao processo de extradição, que será decidido pelo Tribunal de Apelação de Veneza.
A investigação identificou ainda que a defesa de Bottura apresentou às autoridades italianas a informação falsa de que Henrique Pizzolato, extraditado para o Brasil em 2015, teria morrido na prisão. Pizzolato está vivo, e o caso levantou sérias suspeitas sobre tentativas de manipular dados para evitar o retorno do foragido ao país.
Confronto e negação das acusações
Quando confrontado pela equipe do Fantástico no estacionamento do condomínio onde vive, Bottura negou veementemente todas as acusações. Ele afirmou que não chefia organização criminosa, não falsifica documentos e que os processos contra ele se baseiam em denúncias arquivadas. "Eu não tive mais de 200 processos na justiça e ganhei praticamente todos. É uma mentira que eles falam", disse Bottura, que também alegou ter sido alvo de vazamento ilegal de informações na Itália.
Enquanto aguarda a decisão da Justiça italiana, o 'rei dos processos' acumula denúncias, acusações e relatos de vítimas em busca de reparação. Segundo uma associação criada por pessoas que afirmam ter sido prejudicadas por ele, os prejuízos ultrapassam R$ 100 milhões. Para Maria, que hoje sobrevive da venda de mel em feiras, a luta continua por justiça e pela oportunidade de reconstruir sua vida.



