Ucrânia prende ex-ministro em mega-investigação de corrupção que abala governo de Zelensky
A crise política na Ucrânia ganhou novos contornos com a detenção do ex-ministro da Energia German Galushchenko, preso ao tentar deixar o país pela fronteira com a Polônia. As autoridades ucranianas abriram processo criminal contra o ex-membro do governo, em uma investigação bilionária que estima desvios de cerca de US$ 100 milhões e atinge diretamente a cúpula do governo do presidente Volodymyr Zelensky.
Operação "Midas" revela esquema de propinas em contratos estatais
A prisão de Galushchenko integra a operação batizada de "Midas", conduzida pelos dois principais órgãos anticorrupção do país: o Gabinete Nacional Anticorrupção e a Promotoria Especializada Anticorrupção. Segundo os investigadores, o esquema envolvia pagamento de sobretaxas de 10% a 15% por fornecedores para garantir contratos com a estatal nuclear Energoatom ou preservar sua condição de prestadores de serviço.
German Galushchenko, que comandou o Ministério da Energia por quatro anos e chegou a ocupar brevemente a pasta da Justiça no ano passado, foi interceptado no domingo por agentes anticorrupção. Na segunda-feira, promotores anunciaram que ele é suspeito de lavagem de dinheiro e de participação em organização criminosa.
Investigação atinge núcleo político do governo ucraniano
O caso não se limita ao ex-ministro. Entre os citados na apuração estão Timur Mindich, empresário e ex-sócio próximo do presidente Zelensky, e Oleksiy Chernyshov, ex-vice-primeiro-ministro. Ambos negam qualquer irregularidade, mas Mindich já deixou o país em novembro e foi filmado em Israel por um veículo de imprensa ucraniano.
A ofensiva judicial também atingiu diretamente o núcleo político do governo. Em novembro, a residência e o gabinete de Andriy Yermak, principal assessor presidencial, foram alvo de buscas. Horas depois, ele renunciou ao cargo, embora até o momento não haja acusação formal contra ele.
Contexto de guerra aumenta sensibilidade do caso
A investigação ganha contornos ainda mais delicados por envolver contratos para reforçar a proteção de instalações energéticas contra ataques russos. A Ucrânia enfrenta seu quarto inverno sob guerra, com milhões de cidadãos submetidos a apagões e temperaturas rigorosas após sucessivas ofensivas de mísseis e drones lançados pela Rússia contra a infraestrutura elétrica.
Na madrugada de segunda-feira, a força aérea ucraniana informou que mais de 60 drones e seis mísseis foram disparados contra diferentes regiões do país, com pelo menos um míssil e nove drones ultrapassando as defesas aéreas.
Pressão internacional e implicações políticas
O avanço das investigações reacende preocupações antigas sobre corrupção estrutural na Ucrânia, problema que se tornou ainda mais sensível diante da dependência de apoio financeiro e militar de aliados europeus e dos Estados Unidos. Governos ocidentais têm pressionado Kiev a fortalecer mecanismos de transparência como condição para manter a ajuda em meio à invasão russa.
Galushchenko não se manifestou publicamente desde a prisão. Sob lei marcial, homens ucranianos com menos de 60 anos estão proibidos de deixar o país sem autorização especial, e a detenção na fronteira impediu que ele seguisse o mesmo caminho de outros investigados que conseguiram sair do território nacional.
As instituições anticorrupção afirmaram ter reunido cerca de mil horas de gravações ao longo de 15 meses de trabalho na operação "Midas". O desfecho do caso poderá influenciar não apenas o equilíbrio político interno, mas também a percepção internacional sobre o compromisso do governo Zelensky com reformas institucionais em plena guerra.
