Promotor revela que EUA não considerarão posição brasileira sobre classificação do PCC
O promotor de justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MP-SP), afirmou em entrevista ao Estúdio I nesta quarta-feira (11) que os Estados Unidos não levarão em conta a posição do governo brasileiro sobre classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organização terrorista. A declaração ocorre em meio a intensas discussões diplomáticas entre os dois países sobre o tema.
Encontros com autoridades norte-americanas
Nos últimos meses, Gakiya participou de encontros com assessores diretos do secretário de estado dos EUA, Marco Rubio. "Eles queriam conhecer o funcionamento do PCC", revelou o promotor, que investiga a facção criminosa há 20 anos e vive há mais de uma década sob escolta policial 24 horas por dia devido a ameaças de morte recorrentes.
O promotor é ameaçado pela facção desde pelo menos 2005. No ano passado, representantes norte-americanos estiveram em Brasília e São Paulo para obter informações detalhadas sobre a ameaça do PCC e os impactos da organização não apenas para o Brasil, mas internacionalmente.
Nova rodada de reuniões esta semana
Nesta semana, Gakiya volta a se reunir com representantes do governo dos Estados Unidos para compartilhar informações sobre o crime organizado e a atuação do PCC. As conversas devem alinhar o que estará em pauta em um encontro do promotor com a DEA (Drug Enforcement Administration), FBI (Federal Bureau of Investigation) e Departamento de Estado dos EUA em Boston, Massachusetts, ainda neste mês.
Expansão internacional do PCC
Um levantamento obtido em primeira mão pela GloboNews e pelo g1 mostrou que o PCC se instalou em pelo menos 28 países e se infiltrou em presídios no exterior para recrutar novos membros e expandir negócios com tráfico de drogas e armas, além da lavagem de dinheiro. No total, são 2.078 integrantes, a maioria dentro de prisões.
O relatório do Ministério Público de São Paulo tem sido apresentado a embaixadas e consulados fora do país para cooperação internacional no combate a crimes transnacionais em pelo menos quatro continentes. Além da expansão territorial, o que tem chamado atenção é que integrantes do PCC buscaram outros países não apenas para viagens temporárias, mas como moradia fixa e infiltração em cadeias, uma espécie de "marca registrada" da facção criminosa paulista.
Posição brasileira versus norte-americana
O governo brasileiro tenta frear a discussão em curso nos Estados Unidos para classificar as facções Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas, pelo menos até a conversa presencial entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em Washington. Segundo fontes da diplomacia, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, pediu por telefone ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que não encaminhe ao Parlamento dos EUA a decisão de classificar PCC e CV como grupos terroristas.
A solicitação foi feita porque, se Rubio fizer isso, o Congresso norte-americano tem um prazo de sete dias para fazer a análise. Lincoln Gakiya entende que o PCC e o Comando Vermelho não se tratam de organizações terroristas, mas sim de organizações criminosas transnacionais com características de máfia.
"O PCC é uma organização mafiosa, com atuação transnacional em mais de 28 países, pratica atos de natureza terrorista, como se viu em São Paulo nos ataques de 2006. Mas não tem objetivos políticos ou ideológicos, como os de ódio racial, de etnia ou religioso. O objetivo é de dominação territorial e lucro com negócios ilícitos", apontou o promotor de justiça.
Agenda diplomática
O chanceler pediu que Rubio aguarde o encontro entre Lula e Trump, já que o governo brasileiro quer mostrar, na reunião, como tem atuado no combate ao crime organizado no país. Lula pretende fazer uma visita oficial à Casa Branca para se reunir com o presidente Donald Trump. A ideia inicial era que o encontro ocorresse em março, mas diante da dificuldade de agendas, uma data ainda não foi acertada.
Enquanto isso, as investigações sobre o PCC continuam, com Gakiya mantendo sua rotina de proteção constante devido às ameaças que recebe há quase duas décadas. Sua expertise sobre a organização criminosa tem sido fundamental para as discussões internacionais sobre como combater a expansão transnacional do crime organizado brasileiro.



