EUA ignorarão posição do Brasil sobre classificar PCC como terrorista, diz promotor
EUA ignorarão posição do Brasil sobre PCC como terrorista

EUA não considerarão posição brasileira sobre classificação do PCC como terrorista

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo (Gaeco/MP-SP), afirmou em entrevista exclusiva que as autoridades norte-americanas não levarão em conta a posição do governo brasileiro sobre classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organização terrorista. A declaração foi dada durante participação no Estúdio I da GloboNews, onde Gakiya detalhou as preocupações crescentes dos Estados Unidos com a atuação transnacional da facção criminosa.

Preocupação com fentanil e lavagem de dinheiro

Segundo o promotor, que investiga o PCC há duas décadas e vive sob escolta policial há mais de dez anos devido a ameaças de morte, as autoridades americanas estão especialmente alarmadas com o tráfico de fentanil – um anestésico até 100 vezes mais potente que a morfina – e com operações de lavagem de dinheiro em território estadunidense. "A preocupação hoje é o grande número de integrantes do PCC que já estão atuando nos EUA, principalmente no tráfico de fentanil e no tráfico de armas para o Brasil", declarou Gakiya.

O promotor destacou que membros da facção têm investido no mercado imobiliário da Flórida e utilizado criptoativos através de corretoras americanas, configurando uma "garimpagem" financeira sofisticada. Essa expansão preocupa tanto o FBI quanto o DEA (Agência de Combate às Drogas dos EUA), com quem o Ministério Público brasileiro mantém cooperação ativa.

Risco para cooperação internacional

Gakiya alertou que a eventual classificação do PCC como organização terrorista pelos Estados Unidos poderia elevar o nível de confidencialidade das informações compartilhadas, transferindo a gestão desses dados para a CIA e dificultando o acesso direto das autoridades brasileiras. "Se os EUA porventura classificarem o PCC como organização terrorista, ele passa a apresentar, segundo os EUA, um risco para o Estado americano", explicou o promotor, acrescentando que isso poderia interromper o fluxo de inteligência que hoje ocorre via cooperação policial.

Além disso, Gakiya ressaltou que tal classificação poderia abrir precedentes para sanções econômicas contra o Brasil e até mesmo autorizar ações militares estadunidenses fora de seu território. "Quando você classifica uma organização como terrorista, você autoriza o governo americano a praticar ações militares fora do estado americano", afirmou.

PCC não é organização terrorista, defende promotor

Em encontros com assessores do secretário de Estado Marco Rubio, Gakiya reforçou sua posição de que o PCC é uma organização criminosa transnacional com características de máfia, mas não uma entidade terrorista. "O PCC nunca teve cunho ideológico ou político. Não tem ódio racial, religioso ou de etnia como objetivo", argumentou, destacando que o foco da facção é "puramente comercial: lucro e dominação territorial".

O promotor criticou a apropriação política do tema, que criaria expectativas falsas na população sobre endurecimento de penas ou intervenção estrangeira. "O discurso político se apropriou desse tema. Então, parte da população acha que classificar essas facções como terroristas vai nos auxiliar no endurecimento de penas", disse, defendendo que o necessário é "cooperação e atuação conjunta", não meras classificações.

Expansão internacional preocupante

Um levantamento exclusivo obtido pela GloboNews e pelo g1 revela que o PCC está presente em pelo menos 28 países, com 2.078 integrantes – a maioria em prisões estrangeiras. A facção tem se infiltrado em presídios internacionais para recrutar novos membros e expandir seus negócios ilícitos, incluindo tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro em quatro continentes.

O relatório do Ministério Público paulista tem sido apresentado a embaixadas e consulados para fomentar a cooperação internacional, mas a classificação como terrorista poderia criar barreiras burocráticas que hoje não existem. Gakiya participou nesta terça-feira (25) da CPI do Crime Organizado no Congresso Nacional, onde reforçou seus argumentos.

Diplomacia brasileira tenta frear discussão

O governo brasileiro, através do ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira, pediu ao secretário de Estado Marco Rubio que não encaminhe ao Congresso americano a decisão de classificar PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas. A solicitação visa ganhar tempo até o encontro presencial entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, originalmente previsto para março, mas ainda sem data confirmada.

Gakiya finalizou alertando que "não é a classificação do PCC ou do Comando Vermelho como organizações terroristas que vai nos auxiliar a melhorar ou a ter mais eficiência nas investigações". Para o promotor, que enfrenta ameaças desde 2005, a solução está no fortalecimento da cooperação internacional já existente, não em mudanças de nomenclatura que poderiam prejudicar o combate ao crime organizado.