EUA alteram acusação contra Maduro: recuam de 'chefe de cartel' para 'sistema de clientelismo'
EUA alteram acusação contra Maduro em caso de narcoterrorismo

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) realizou uma significativa alteração na acusação formal contra o ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. A mudança, revelada em uma versão atualizada do documento na segunda-feira, 5 de janeiro de 2026, suaviza a linguagem em relação ao envolvimento direto do líder venezuelano com um grupo criminoso específico.

Mudança na linguagem da acusação

Na acusação original, Maduro era apontado explicitamente como o chefe do chamado Cartel de los Soles, organização designada como terrorista estrangeira pelos EUA em novembro do ano anterior. O grupo era citado 32 vezes no texto inicial. A nova versão, no entanto, opta por termos mais amplos.

O documento agora fala em um "sistema de clientelismo" e uma "cultura de corrupção" financiada pelo narcotráfico. Segundo a peça processual, os lucros do tráfico "fluem para funcionários corruptos de baixa patente, sejam civis, militares ou da inteligência, que operam em um sistema de clientelismo comandado pelos que estão no topo".

Essa estrutura no topo é referida como Cartel de los Soles, uma alusão ao emblema de sol nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente. Não há mais, porém, uma menção direta a Maduro como o comandante desse grupo.

Contexto da prisão e acusações principais

Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram detidos por militares americanos na madrugada de sábado, 3 de janeiro de 2026, dentro do complexo militar do Forte Tiuana, conforme relatado pela CNN e confirmado por autoridades venezuelanas. Ambos estão presos no Brooklyn e alegam inocência.

O presidente Donald Trump afirmou à Fox News que assistiu ao vivo à captura, transmitida por agentes em missão. A Casa Branca, mesmo após a mudança no documento judicial, continua reafirmando publicamente a alegação contra Maduro e mantém uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à sua captura.

O novo indiciamento, divulgado no sábado, mantém acusações graves. Promotores de Manhattan alegam que Maduro supervisionou pessoalmente uma rede de tráfico de cocaína patrocinada pelo Estado, com parcerias incluindo os cartéis mexicanos de Sinaloa e Los Zetas, as FARC colombianas e a gangue venezuelana Tren de Aragua.

Réus e enquadramento legal

O processo na Corte do Distrito Sul de Nova York inclui, além de Maduro e Cilia Flores, seu filho Nicolás Maduro Guerra, o ministro do Interior Diosdado Cabello, e Hector Guerrero Flores, o Niño Guerrero, líder do Tren de Aragua.

O documento acusatório é crucial: é esta denúncia criminal formal ("indictment") que autoriza acusações graves e a expedição de mandados de prisão internacionais. Maduro é acusado de narcoterrorismo, sendo enquadrado como uma ameaça à segurança nacional dos EUA com base em uma lei pós-11 de setembro.

O procurador Jay Clayton afirmou que "Maduro Flores permite que a corrupção alimentada pela cocaína floresça para seu próprio benefício, para o benefício dos membros de seu regime governante e para o benefício de seus familiares".

Controvérsias e dúvidas sobre o cartel

A existência do Cartel de los Soles como uma organização formal sempre foi alvo de ceticismo. Na época das primeiras acusações, Caracas as rejeitou veementemente, e analistas internacionais levantaram dúvidas sobre a estrutura real do grupo.

Curiosamente, relatórios oficiais de monitoramento de drogas, como o Relatório Nacional Anual sobre Ameaças de Drogas da DEA e o Relatório Mundial sobre Drogas da ONU, nunca citaram a suposta organização criminosa. Essa ausência em documentos de inteligência consagrados contrasta com a narrativa judicial americana.

A alteração na acusação pode refletir uma adaptação estratégica do Departamento de Justiça, focando em provas concretas de um sistema de corrupção e narcotráfico, em vez de uma estrutura de comando de cartel que pode ser mais difícil de comprovar em tribunal.

O caso segue como um dos mais complexos e politicamente sensíveis da justiça americana recente, misturando direito penal, direito internacional e questões de segurança nacional em um processo que mantém o ex-líder venezuelano como uma figura central na geopolítica das Américas.