A babá espiã: a vida secreta da agente soviética que cuidou de crianças no Uruguai
Babá espiã do KGB cuidou de crianças enquanto espionava na Guerra Fria

A mulher que não era quem parecia ser

Ela se apresentava como María Luisa, uma simples babá e costureira que vivia no Montevidéu dos anos 1950 e 1960. Mas por trás dessa fachada comum escondia-se uma das agentes mais importantes do serviço de inteligência soviético KGB: África de las Heras, a espiã espanhola que usou o Uruguai como base para tecer uma extensa rede de espionagem durante os anos mais tensos da Guerra Fria.

Da resistência antifranquista ao coração da KGB

Antes de chegar à América Latina, África de las Heras já havia construído uma trajetória extraordinária. Militante comunista espanhola, integrou a resistência contra o general Francisco Franco em Barcelona. Durante a Segunda Guerra Mundial, atuou como telegrafista nas florestas da Ucrânia contra a ocupação nazista. Participou do planejamento do assassinato de León Trotsky no México, realizou atividades de espionagem em Paris e trabalhou como instrutora de espiões em Moscou.

Com o codinome "Patria" dentro da KGB, ela acumulou a patente de coronel e uma longa lista de condecorações soviéticas. Morreu pouco antes do colapso da União Soviética, levando para o túmulo segredos que talvez nunca venham completamente à luz.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

O disfarce perfeito no Uruguai

A história de como África de las Heras chegou ao Uruguai começa em Paris, onde seduziu e casou-se com o escritor uruguaio Felisberto Hernández. O casal chegou a Montevidéu no final de 1947, estabelecendo-se em um país que, justamente por estar fora do radar internacional, parecia ideal para criar uma base de operações.

Seu objetivo principal era coordenar e obter documentos falsos para agentes soviéticos que buscavam informações sobre a bomba atômica dos Estados Unidos, uma das maiores preocupações de Moscou no início da Guerra Fria. Para conseguir esses documentos, a espiã desenvolveu um método macabro: visitava cemitérios do interior uruguaio em busca de túmulos de crianças mortas.

"Quando encontrava túmulos de crianças, ia aos cartórios das cidades, pedia as certidões de nascimento e depois confeccionava documentos falsos dessas crianças que não haviam vivido", explica a escritora argentina Laura Ramos, que investigou a vida da espiã durante cinco anos.

A babá que servia lanches e guardava segredos mortais

Para manter sua cobertura, África de las Heras aproximou-se de intelectuais uruguaios, muitos deles amigos de seu marido. Apresentava-se como uma pessoa apolítica, oferecia ajuda para cuidar de crianças e dedicava-se a trabalhos de costura. Foi assim que conheceu a mãe de Laura Ramos, anos antes da família se mudar para a Argentina.

Quando a família retornou a Montevidéu, Ramos e seu irmão foram entregues aos cuidados da espiã em 1964. "Tenho uma lembrança muito nítida de vê-la parada na porta da nossa escola", recorda a escritora. "Ela nos buscava na escola e nos levava para a casa dela para tomar o lanche."

Ramos descreve uma mulher de meia-idade, cabelos grisalhos, baixa estatura e vestindo sempre saia e blusa. "Não era uma pessoa doce, de jeito nenhum, era mais seca", afirma, lembrando que a babá contava histórias da biografia da soviética Gulia Koroliova.

O que mais atraía as crianças à casa da espiã eram os docinhos caros do Oro del Rhin ou de La Mallorquina que ela servia no lanche, junto com café com um pouco de leite. O que não sabiam é que naquela mesma casa se desenrolavam operações de espionagem internacional.

Descobertas aterrorizantes e mortes suspeitas

Durante sua investigação, Laura Ramos descobriu uma gravação em fita cassete que revela segredos sombrios sobre a passagem de África de las Heras pelo Uruguai. Segundo uma bibliotecária uruguaia recrutada como espiã, a agente da KGB teria participado de duas mortes.

A primeira seria a de seu segundo marido, o espião italiano Valentino Marchetti, que os soviéticos lhe enviaram como chefe. A gravação afirma que ela o envenenou e pediu ajuda para mover o corpo entre cômodos da casa na rua Williman, em Montevidéu - a mesma casa onde Ramos e seu irmão tomavam lanche.

"Segundo a gravação, ela envenenou o marido no mesmo sofá onde eu me sentava para tomar leite. Isso me parece assustador", confessa a escritora.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

A segunda morte seria a do professor universitário uruguaio Arbelio Ramírez, durante um ato de Ernesto Che Guevara em Montevidéu em 1961. Ramírez também teria sido recrutado para trabalhar em tarefas secretas com a espiã.

A evidência mais perturbadora, segundo Ramos, é que o mesmo médico que atestou a morte do marido envenenado foi contratado três anos antes para realizar a autópsia de Arbelio Ramírez. "No livro, eu apresento as provas que estão na gravação. Está tudo documentado", afirma a escritora.

O legado de uma vida dupla

África de las Heras separou-se de Felisberto Hernández logo após obter a cidadania uruguaia e casou-se com Valentino Marchetti. Juntos, compraram a casa na rua Williman que se tornaria tanto um lar temporário para crianças quanto um centro de operações de inteligência.

Na União Soviética, ela era considerada uma heroína por seus serviços de inteligência, sendo inclusive imortalizada em um selo postal. No Uruguai e para as crianças que cuidou, permaneceu como María Luisa, a babá discreta que servia doces caros depois da escola.

O livro "Mi niñera de la KGB" de Laura Ramos é o primeiro trabalho escrito por alguém que conheceu pessoalmente a espiã e se aventurou pelos recantos mais profundos de sua vida na América Latina. Revela não apenas a história de uma agente secreta, mas também as consequências humanas de vidas construídas sobre mentiras e segredos mortais.

A descoberta mais surpreendente para Ramos foi perceber que a mulher que a alimentava com doces finos e café com leite era a mesma pessoa que, segundo as evidências, envenenou seu marido no sofá onde a criança se sentava. Uma revelação que une o cotidiano aparentemente normal da infância com os mecanismos sombrios da espionagem internacional durante um dos períodos mais tensos do século XX.