Alpinista é condenado por morte da namorada por hipotermia na montanha mais alta da Áustria
Um tribunal da Áustria condenou nesta quinta-feira, 19 de setembro, um alpinista pela morte por hipotermia de sua namorada durante uma escalada em janeiro de 2025. Thomas P., de 37 anos, recebeu uma sentença de cinco meses de prisão por homicídio culposo por negligência grave, além de uma multa de 9.400 euros, equivalente a aproximadamente R$ 57,6 mil. A execução da detenção foi suspensa, mas a decisão ainda pode ser recorrida.
Erros graves em situação de risco extremo
O caso ocorreu durante uma escalada ao Grossglockner, a montanha mais alta da Áustria, com 3.798 metros de altitude. Segundo a promotoria, o réu cometeu uma série de erros sérios que resultaram na morte da parceira, de 33 anos. A vítima foi encontrada a apenas 50 metros do cume, em condições de frio extremo.
O juiz responsável pelo caso, Norbert Hofer, que também é montanhista experiente, destacou que Thomas não levou em consideração que sua namorada nunca havia realizado uma escalada de inverno tão desafiadora. "Ela continuou até a morte", afirmou o magistrado durante o julgamento.
Negligência em momentos críticos
Entre os principais erros apontados pela acusação estão:
- Deixar a namorada "indefesa, exausta, hipotérmica e desorientada" próxima ao pico
- Não utilizar o cobertor de emergência que estava na mochila da vítima
- Demora significativa para acionar os serviços de resgate
- Fornecer equipamentos inadequados para as condições climáticas
- Não desistir da escalada quando as condições pioraram
O réu tentou justificar suas ações alegando que a situação estava "particularmente estressante", mas não conseguiu explicar por que não usou o equipamento de emergência disponível.
Comunicação falha com equipes de resgate
Um aspecto crucial do caso foi a comunicação inadequada com as autoridades. Thomas fez uma ligação tardia aos serviços de emergência, mas não deixou claro que necessitava de resgate imediato. Além disso, não atendeu às ligações de retorno nem às mensagens no WhatsApp que perguntavam se precisavam de ajuda, alegando que seu telefone estava no modo avião para economizar bateria.
Um perito em montanhismo que testemunhou no julgamento descreveu as técnicas de comunicação do réu com as equipes de resgate como "inadequadas", "incompreensíveis" e "absolutamente incompetentes".
Histórico preocupante e defesa do acusado
Durante o processo, promotores apresentaram uma testemunha que era ex-namorada do réu. Ela relatou que, em 2023, durante uma escalada ao mesmo pico, Thomas a deixou sozinha à noite após uma discussão sobre a rota, enquanto sua lanterna de cabeça ficava sem bateria.
Em sua defesa, o alpinista afirmou que sua namorada era "uma montanhista entusiasmada e muito atlética" e que sempre planejavam as escaladas juntos. Contudo, declarações anteriores contradizeram essa versão, pois ele se descrevia como o responsável pela subida. Thomas também admitiu que aprendeu montanhismo sozinho, através de prática e vídeos online, sem nunca ter feito um curso formal.
Debate sobre responsabilidade no montanhismo
O julgamento reacendeu o debate sobre os limites da responsabilidade legal em ambientes de escalada, que são inerentemente perigosos. Na Áustria, acidentes de montanha raramente chegam aos tribunais porque o Judiciário enfatiza a responsabilidade individual dos praticantes.
Segundo dados do Conselho Austríaco de Segurança Alpina, ocorrem em média 8.400 acidentes por ano nas montanhas do país, resultando em quase 300 mortes. Embora muitas fatalidades decorram de doenças cardiovasculares ou quedas, mortes por congelamento ou exaustão são consideradas raras.
O juiz Hofer reconheceu que Thomas tentou buscar ajuda, afirmando: "Eu não o vejo como um assassino. Não o vejo como alguém sem coração". No entanto, destacou que a namorada havia confiado sua segurança a ele, e que o réu claramente tem dificuldade em conciliar seu alto nível de habilidade com as capacidades de outras pessoas.
No início do julgamento, o alpinista se disse "infinitamente arrependido pelo que aconteceu e pela forma como aconteceu", mas manteve sua declaração de inocência. Os pais da vítima descreveram sua filha durante o processo como extremamente determinada, o que pode ter contribuído para a decisão de continuar a escalada mesmo em condições adversas.



