Uma investigação da Polícia Federal revelou que o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, utilizou um empréstimo fraudulento da própria instituição financeira para adquirir uma mansão de alto padrão avaliada em R$ 36,1 milhões em Brasília. A operação faz parte de uma complexa rede de desvios que está no centro da Operação Compliance.
O esquema por trás da compra do imóvel de luxo
A aquisição da mansão localizada no Lago Sul, bairro nobre da capital federal, foi realizada em 8 de maio de 2024 pela empresa Super Empreendimentos e Participação. Conforme apurado, a Super integra uma lista de 35 companhias suspeitas de obter empréstimos irregulares do Banco Master. O objetivo desses financiamentos era alimentar uma rede de fundos de investimento que, segundo as autoridades, desviavam dinheiro do banco para "laranjas" e depois retornavam os recursos ao Master, em um esquema de retroalimentação.
Daniel Vorcaro afirmou que seu cunhado, Fabiano Zettel, era sócio da Super na época do financiamento. Zettel, que também foi um dos alvos da segunda fase da Operação Compliance deflagrada em 14 de agosto, chegou a ser preso ao tentar embarcar para Dubai, mas foi liberado horas depois. Ele deixou o quadro societário da empresa em 23 de julho de 2024, substituído por uma funcionária.
A revenda suspeita e a estrutura dos fundos
Quase um ano após a compra, em 11 de abril de 2025, a Super vendeu a mansão pelo exato mesmo valor de R$ 36,1 milhões para a Prime Aviation 4 Participações. Esta empresa faz parte do grupo Prime You, do qual o próprio Daniel Vorcaro é sócio. A transação de revenda não foi registrada na matrícula do imóvel, mas foi descoberta pela reportagem que obteve a escritura.
A defesa de Vorcaro emitiu nota afirmando que a relação do ex-banqueiro com a Super é estritamente comercial, envolvendo operações de compra, venda de ativos e contratos de aluguel. A nota também reiterou que um dos sócios da empresa é cunhado de Vorcaro, "fato de conhecimento público".
Entretanto, a investigação aponta que a Super Empreendimentos pertence a um fundo chamado Termópilas, cujo único cotista é outro fundo, o Astralo 95. O Banco Central identificou o Astralo 95 como um dos seis fundos integrantes do esquema fraudulento do Banco Master, conforme denúncia encaminhada ao Ministério Público Federal.
O Termópilas assumiu o controle da Super em dezembro de 2023, quando o capital social da empresa saltou de R$ 16 milhões para R$ 1,3 bilhão. Esse montante aumentou para R$ 2,1 bilhões em junho de 2024 e atingiu R$ 2,6 bilhões em julho do mesmo ano, valor que se mantém até o momento.
Especialistas apontam ilegalidades e prejuízos
Para a pesquisadora da FGV Direito Rio, Layla McClaskey, a operação é problemática independentemente de Vorcaro ser ou não cotista do fundo Astralo 95. Se a empresa for controlada por um fundo ligado a Vorcaro ou ao seu banco, haveria uma violação grave das regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Fisco.
"Fere vários princípios de realização de operações com partes relacionadas, como a lealdade, diligência e transparência", afirmou McClaskey. As regras exigem que negócios com partes relacionadas sejam claramente indicados e que o ganho para o fundo seja explicitado. "A operação simula um investimento e não é, o que seria uma fraude", resumiu a especialista.
Ela também destacou que a revenda do imóvel pelo mesmo preço de compra é suspeita, pois permite evitar o pagamento de Imposto de Renda, já que a transação não gerou lucro declarado. No cenário em que Vorcaro ou o Banco Master não são os beneficiários finais do fundo, a situação se agrava, pois "todos os cotistas estão sendo prejudicados".
Um ex-dirigente da CVM, que falou sob condição de anonimato, sugeriu que a operação pode ter sido uma forma encontrada por Vorcaro para retirar dinheiro do banco sem a necessidade de pagar dividendos. Como os dividendos são calculados sobre o lucro da empresa, eles limitam o valor que pode ser repassado ao controlador. Utilizando a estrutura de fundos e empresas, Vorcaro teria conseguido extrair mais recursos da instituição financeira.
Além da mansão de Brasília, a Super Empreendimentos possui outros negócios. A empresa tem participação em uma companhia que integra o consórcio administrador do Minascentro, centro de convenções em Belo Horizonte – cidade natal de Vorcaro – e também é sócia de duas empresas de esportes em São Paulo.
O caso ocorre em meio ao desdobramento da Operação Compliance e à decisão do Banco Central de decretar a liquidação da Reag, outra instituição investigada por fraudes no caso Master.