A Polícia Federal (PF) está investigando um esquema financeiro bilionário envolvendo o Banco Master, que teria movimentado quase R$ 6 bilhões em operações fraudulentas. As investigações, que partiram de uma denúncia anônima por e-mail, foram reveladas após decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou o bloqueio de recursos e a quebra de sigilos.
O Mecanismo da Fraude: Fundos e Notas Comerciais Infladas
De acordo com as apurações, o esquema articulado pelo banco, controlado por Daniel Vorcaro, criou uma estrutura complexa para circular ativos sem liquidez e com valores artificialmente inflados. A tática central consistia em direcionar recursos captados no mercado, principalmente por meio da emissão de CDBs (Certificados de Depósito Bancário), para fundos de investimento dos quais o próprio Banco Master era o único cotista.
Dentro desses fundos, o dinheiro era usado para adquirir Notas Comerciais (NCs) emitidas por empresas vinculadas aos sócios do banco. A análise técnica da PF apontou que, do total de mais de R$ 3,5 bilhões aplicados nesses fundos exclusivos, cerca de R$ 1,8 bilhão foi para comprar NCs de companhias ligadas aos controladores, configurando forte indício de simulação de operações.
Laranjas e Empresas de Fachada no Centro do Esquema
Um dos pilares para a execução do plano foi o uso de "laranjas" – pessoas que emprestam seus nomes para ocultar os verdadeiros operadores. A PF detalha o caso da Clínica Mais Médicos, que emitiu NCs no valor de R$ 361 milhões sem oferecer qualquer garantia real.
Os números são chocantes: o capital social da clínica era zero e sua receita operacional bruta anual em 2023 foi de apenas R$ 54.079,64. Isso significa que a dívida da empresa era mais de 6.500 vezes maior do que sua capacidade de geração de receita, uma alavancagem considerada totalmente inviável pelos investigadores.
A presidente e sócia da clínica, Valdenice Pantaleão, foi identificada como beneficiária do auxílio emergencial em 2020 e 2021 e não possui patrimônio compatível com o cargo que ocupava. A PF sustenta que ela atuava como fachada. Valdenice teria outorgado procuração a Fernando Alves Vieira, pessoa com ligações diretas com familiares dos sócios do Banco Master.
Conexões com Hospital e Outras Empresas
A teia de empresas não para na clínica. A investigação aponta que a Clínica Mais Médicos está ligada ao Hospital da Criança de São José, que também emitiu Notas Comerciais, no caso estimadas em R$ 372 milhões. Outras companhias dos sócios, como a Holding AF S.A. e a Simetria Planos de Saúde, repetiram o mesmo padrão de emissão de NCs adquiridas pelos fundos controlados pelo Master.
A consolidação de todas essas operações correlatas levou a um valor global investigado de R$ 5.775.234.097,25. A decisão do ministro Toffoli, datada de 15 de janeiro de 2026, atendeu a pedido da PF e representa um passo significativo para desmontar a estrutura fraudulenta, ao bloquear recursos e quebrar sigilos bancários, fiscais e telefônicos dos investigados.
O caso, que chocou o mercado financeiro, começou a ser desvendado a partir de uma mensagem de e-mail anônima enviada para o endereço institucional da Polícia Federal, demonstrando como denúncias podem ser o ponto de partida para investigações de grande escala.