Redes Sociais no Banco dos Réus: Ex-funcionária do WhatsApp Revela Frustrações Internas
Redes Sociais no Banco dos Réus: Ex-funcionária Revela

Redes Sociais no Banco dos Réus: Ex-funcionária do WhatsApp Revela Frustrações Internas

Em meio ao julgamento histórico nos Estados Unidos sobre o vício de crianças e adolescentes em redes sociais, a ex-chefe de políticas públicas do WhatsApp no Brasil, Daniela de Almeida, revelou ao Fantástico o profundo descontentamento que a levou a deixar o emprego na plataforma. "Eu tinha uma frustração imensa de fazer o meu trabalho por dentro de uma empresa e encontrar tantas barreiras para poder levantar formas mais seguras, formas mais íntegras de desenvolver as tecnologias que depois iam chegar ao público e que eu sabia que iam chegar também a crianças e adolescentes", declarou a ex-executiva.

O Julgamento que Pode Mudar Tudo

Na última quarta-feira, Mark Zuckerberg, fundador da Meta, empresa controladora do Facebook, WhatsApp e Instagram, sentou-se diante de um tribunal americano para depor pela primeira vez em um processo que pode alterar permanentemente a relação das redes sociais com seus usuários mais jovens. A acusação central é contundente: as gigantes da tecnologia viciam propositalmente crianças e adolescentes, lucrando às custas de sua saúde mental.

O julgamento, que reúne mais de mil e seiscentas ações judiciais, pode estabelecer uma jurisprudência inédita nos Estados Unidos sobre a responsabilização das empresas de mídia social. A batalha legal foi iniciada em 2023 por uma jovem californiana, cuja identidade permanece em sigilo. Hoje com 20 anos, ela começou a utilizar redes sociais aos seis e, conforme seus advogados, foi diagnosticada com severos problemas de saúde mental, incluindo ansiedade, depressão e ideação suicida, como consequência direta da exposição a conteúdos perigosos.

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A Arquitetura do Vício

Marie Santini, diretora do Netlab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou categoricamente que as plataformas são projetadas para viciar. "Tudo isso foi desenhado para que crianças, adolescentes e adultos fiquem o máximo de tempo possível dentro da plataforma. O produto é desenhado pra reter e pra viciar", explicou a especialista.

Nos antebraços, a advogada Laura Márquez carrega duzentos e noventa e seis traços. Cada um, segundo ela, simboliza uma criança que faleceu em decorrência dos danos causados pelas redes sociais e pela Inteligência Artificial. Representando uma equipe de advogados no caso contra a Meta, ela afirma que as evidências são contundentes. "Você vai ver declarações de gente de dentro do Instagram dizendo coisas do tipo: 'O Instagram é uma droga'", revelou Márquez.

O processo forçou a Meta a entregar milhões de documentos internos. Muitos deles, conforme a acusação, confirmam que a empresa não apenas conhecia os danos potenciais de seus produtos na saúde mental de adolescentes, mas também conduzia estudos sobre o cérebro jovem, ainda em desenvolvimento, para explorar suas vulnerabilidades neurológicas. Os advogados denominam essa estratégia de "arquitetura do vício", criada especificamente para gerar dependência.

Denúncias de Dentro da Empresa

As acusações ganham força com o testemunho de Sarah Wynn-Williams, que trabalhou por seis anos na Meta e alcançou o cargo de diretora global de políticas públicas da empresa. Ela se transformou em uma das vozes mais críticas sobre o tema. Em seu livro "Gente Descuidada", ela detalha como a empresa capitaliza sentimentos negativos.

"A empresa desenvolveu a capacidade de avaliar quando um adolescente se sente inútil ou impotente", explicou Sarah. "Se uma menina de treze anos apaga uma selfie, porque não se sente bem com ela, essa é uma informação que a empresa consegue coletar", completou. O que era feito com essa informação? "Eles deram essa pesquisa para um anunciante de produtos de beleza porque, do ponto de vista do anunciante, o momento em que uma adolescente se sente sem valor é um bom momento pra veicular um anúncio de beleza".

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Em depoimento ao Senado americano no ano passado, Sarah relatou: "Eu perguntava aos executivos: 'seu filho adolescente já usou o produto que vamos lançar?'. E eles respondiam: 'meu filho adolescente não tem permissão para usar o Facebook. Meu adolescente não está no Instagram'. Esses executivos conhecem os danos que esses produtos causam".

A Defesa de Zuckerberg e o Custo Humano

Em seu depoimento, Mark Zuckerberg negou que os aplicativos sejam desenvolvidos para viciar. Ele reiterou que a idade mínima para criar uma conta no Instagram é de 13 anos. Contudo, um documento interno da própria Meta, apresentado no processo, estimava que em 2015 a rede já contava com mais de quatro milhões de usuários abaixo dessa faixa etária.

Questionado sobre recomendações de especialistas que alertavam para o impacto negativo dos filtros de beleza, Zuckerberg afirmou que ignorou os avisos, considerando o uso dos filtros "uma questão de liberdade de expressão".

Para a ativista Lóri, que também integra o processo, as consequências foram trágicas. Ela perdeu a filha, Annalee, de 18 anos, em 2020. "A ficha caiu quando li os diários dela, que diziam: 'como alguém vai amar uma pessoa tão feia quanto eu? Vejo os perfis das outras garotas, estou destruída e não tenho futuro'". Ela afirma que as redes sociais no celular da filha continham conteúdos profundamente nocivos.

Medidas Globais e a Resposta das Empresas

Países ao redor do mundo começam a adotar medidas sobre o tema. A Austrália estabeleceu a idade mínima de 16 anos para uso de redes sociais. A China impôs um limite de 40 minutos diários na versão local do TikTok para menores de 14 anos. Dinamarca, França e Grécia discutem restrições semelhantes.

Em nota ao Fantástico, a Meta afirmou que "discorda fortemente das alegações" do processo e que as evidências demonstrarão seu "compromisso de longa data em dar apoio aos jovens". A empresa citou a introdução de contas para adolescentes e ferramentas de supervisão para os pais como exemplos de suas iniciativas. "Há mais de uma década ouvimos pais, trabalhamos com especialistas e com as autoridades e conduzimos pesquisas aprofundadas para entender as questões mais relevantes nesta frente", declarou a nota corporativa.

No tribunal americano, o advogado do Google argumentou que o YouTube não é viciante, nem é rede social, mas sim uma plataforma de entretenimento. O YouTube divulgou em seu blog iniciativas como o recurso de contas supervisionadas para adolescentes e pré-adolescentes.

Para os advogados das vítimas, no entanto, o objetivo transcende uma compensação financeira. "Se o resultado do processo for apenas compensação financeira, nós perdemos", advertiu Laura Márquez. "No fim das contas, o objetivo é parar com isso, forçar as redes a consertar seus produtos".