Embora seu próximo show no Brasil, no sábado (2 de abril), seja gratuito, Shakira atualmente cobra até mil reais por um ingresso para suas apresentações tradicionais em grandes arenas e estádios. Essa foi a realidade em sua última passagem pelo país, em novembro passado, quando se apresentou no Rio de Janeiro e em São Paulo. O valor pode surpreender fãs de longa data, que acompanharam seus primeiros shows no Brasil em 1997, quando ela se lançava no mercado nacional. Na época, a colombiana fez uma apresentação com ingressos a R$ 5, o que equivale a cerca de R$ 43 em valores corrigidos. Um anúncio desse show, realizado em Uberlândia (MG), viralizou nas redes sociais após a confirmação de que ela seria a atração do projeto Todo Mundo no Rio, que promove um megashow anual gratuito em Copacabana desde 2024.
O show de 1997 e os preços da época
O show em Minas Gerais integrou a Exposição Agropecuária do Camaru. Naquele ano, Shakira fez dezenas de apresentações pelo Brasil. Cantou no Olympia, extinta casa de shows na Lapa, em São Paulo, com entradas a partir de R$ 30, mesmo valor cobrado no Moinho Santo Antônio, outro espaço de eventos na Mooca. Os preços estão registrados no acervo da Folha de S.Paulo. Corrigidos pelo IGP-M, os R$ 5 e R$ 30 equivaleriam hoje a R$ 43 e R$ 257, respectivamente. Na época, esses valores representavam 4,17% e 25% do salário mínimo de R$ 120. Em contraste, o ingresso para a turnê Las Mujeres Ya No Lloran, em 2025, equivalia a 66% do salário mínimo, algo comum para shows de estrelas globais no Brasil.
Estratégia de sucesso
Antes de comandar o megashow em Copacabana, Shakira teve que se dedicar intensamente ao mercado brasileiro. Fez uma turnê por dezenas de cidades, concedeu inúmeras entrevistas e participou de programas de TV. Em 1997, no Domingo Legal, com Gugu Liberato, ela sambou, fez dança do ventre e aprendeu a “dança da bundinha”, inspirada no grupo É o Tchan. Tudo fazia parte da estratégia da Sony Music, que investiu US$ 2,8 milhões. A gravadora contou com o carisma da artista, que aprendeu português, e a levou a programas de TV, rádio, jornais e lojas como a Americanas. Shakira se apresentou em diversas cidades, incluindo Barretos e Ribeirão Preto, no interior paulista.
Parceria com a Jovem Pan
Outro fator crucial foi a parceria com a rádio Jovem Pan. Luiz Calainho, então diretor de marketing da Sony Music, ofereceu ao dono da emissora, Tutinha, US$ 1 por cada disco vendido. A rádio tocava as músicas de Shakira de três a quatro vezes por dia. A artista vendeu cerca de 1,06 milhão de cópias, gerando US$ 1 milhão para a emissora. Na época, cada disco custava R$ 15, e o lucro bruto foi de US$ 15 milhões. Hoje, o alcance da mídia tradicional é menor, e o mercado de CDs encolheu: representa apenas 0,6% dos R$ 3 bilhões da indústria fonográfica brasileira, enquanto o streaming domina com 88%.
Disposição da artista
Calainho destaca que a disponibilidade dos artistas mudou. Shakira, na época, tinha cabelos pretos e estava disposta a tudo. No Domingo Legal, foi jurada do quadro A Banheira do Gugu. Em outra entrevista, no Programa Livre, com Serginho Groisman, a plateia pediu para ver seus “pies descalzos”, e ela atendeu. “Há 30 anos, o artista sabia que tinha que ir para a rua, à loja, ao programa de TV. A disposição hoje é outra”, afirma Calainho. “A Banheira do Gugu seria inviável atualmente. Mas Shakira estava realmente a fim de construir sua carreira no Brasil.”



