São Paulo pode ganhar mais árvores com substituição de vagas de carro por canteiros
A Câmara Municipal de São Paulo está prestes a votar um projeto de lei inovador que pode transformar a paisagem urbana da capital paulista. A proposta, que já passou pelo primeiro turno de aprovação, prevê a conversão de até 20% das vagas de estacionamento em ruas por canteiros com árvores, criando as chamadas "vagas verdes".
Como funcionarão as vagas verdes
Pelo texto do projeto, as vagas verdes terão comprimento mínimo de 5 metros e poderão ser agrupadas gradualmente até atingir o limite máximo permitido. A continuidade entre os canteiros é preferível, pois traz vantagens ambientais mais significativas. Além das árvores, os espaços poderão contar com mesas e bancos, sendo instalados preferencialmente perto de cruzamentos para melhorar as condições de travessia dos pedestres.
O principal objetivo é duplo: reduzir a velocidade de escoamento das águas pluviais e melhorar a absorção da chuva pelo solo, combatendo problemas de enchentes que assolam a cidade. Os canteiros serão projetados especificamente para essas finalidades ambientais.
Teste já realizado na Bela Vista
Um projeto piloto já foi implementado em janeiro na Rua Santo Antônio, no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo. No local, foi plantada uma muda de jacarandá mimoso - espécie sul-americana com características flores arroxeadas - em um canteiro de aproximadamente 2 metros de largura, equivalente ao espaço de uma vaga de motocicleta.
Funcionários e moradores de um prédio próximo assumiram a responsabilidade pela jardinagem do espaço, criando um modelo de gestão comunitária que pode ser replicado em outras áreas da cidade.
"Ficou melhor para os moradores e para o comércio que tem aqui do lado. Antes, quando era guia normal, sempre tinha carro abandonado", relata Paulo Antônio Silva, zelador que trabalha no endereço há 20 anos e já levou novas plantas para aumentar o verde da área.
Aceitação da comunidade e desafios
A diarista Valéria Pereira, de 60 anos, que mora na calçada em frente ao teste, acredita que o modelo pode resolver um problema antigo do bairro: a falta de espaço para plantio de árvores. "Eu acho uma maravilha ter árvores na rua de casa, principalmente quando tá aquele solão. E, desse jeito, ficou muito bom porque não atrapalha a passagem", comemora.
Porém, nem todos os vizinhos compartilham do mesmo entusiasmo. Valéria, que nasceu no bairro, conta que novas árvores nem sempre agradam a vizinhança, que reclama da perda de espaço e das calçadas quebradas depois que as plantas crescem. Como exemplo, ela aponta para canteiros a poucos metros de sua casa, onde duas mudas plantadas recentemente tiveram os troncos quebrados - embora não saiba dizer por quem.
Critérios de implantação e prioridades
Pelo projeto aprovado em junho do ano passado, as ruas com calçadas estreitas - onde o plantio tradicional de árvores comprometeria a circulação de pedestres - estarão entre os locais preferenciais para instalação das vagas verdes. O texto também indica como áreas prioritárias os bairros com maior concentração de ilhas de calor e regiões sujeitas a enchentes.
Moradores interessados em ter uma vaga verde em sua quadra poderão fazer solicitação ao órgão responsável, assumindo a responsabilidade pela jardinagem e comunicação de ocorrências ao poder público. A proposta ainda prevê a possibilidade de convênios com entidades da sociedade civil.
Compensação ambiental e dívida de árvores
Um dos pontos centrais do projeto, segundo a vereadora Renata Falzoni (PSB), que assina a proposta junto com Nabil Bonduki (PT) e Marina Bragante (PSB), é criar mecanismos para que o município reduza o estoque de mudas sem área de plantio. A implantação das vagas verdes servirá como forma de compensação ambiental para empreendedores que receberam autorização para cortar árvores por meio de Termo de Compromisso Ambiental (TCA).
"Desse processo de dívida de incorporadoras, nós temos 459 mil árvores que precisam ser plantadas na cidade só das compensações ambientais", justifica a vereadora.
Ela ressalta que o projeto não impõe obrigações ao Poder Executivo, mas cria ferramentas legais para que a política pública seja implementada de forma colaborativa. "A gente instrumentaliza essa forma de rearborização da cidade com um efeito colateral maravilhoso, que é você ampliar calçada e lugares de estar da população, e eventualmente propor menos espaços públicos privatizados para os automóveis e mais espaços públicos mesmo", acrescenta, citando Paris como exemplo de grande cidade que conseguiu reduzir a temperatura média de sua área central com estratégia similar.
Programas municipais já em andamento
A Prefeitura de São Paulo já mantém programas similares em execução. Desde 2021, a Secretaria Municipal das Subprefeituras (Smsub) instalou 37 vagas verdes incorporadas a jardins de chuva, com plantas de raízes profundas que ajudam na filtragem de poluentes, melhorando a qualidade da água que chega aos rios e córregos.
Segundo a administração municipal, esses espaços "funcionam como reservatórios para o excesso de água pluvial, favorecendo sua infiltração no solo e contribuindo para a recarga do lençol freático".
Outro modelo, implantado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) desde 2020, permite o plantio de árvores convencionais em áreas de estacionamento de veículos. Atualmente, a cidade conta com 56 vagas verdes deste tipo, consideradas intervenções pontuais pela gestão municipal.
Próximos passos
Um novo texto deverá ser apresentado pelo Executivo para votação em segundo turno, mas não deve trazer mudanças significativas em relação à versão atual. O projeto estava previsto na pauta da semana passada, mas não houve quórum suficiente para a votação, adiando a decisão para uma próxima oportunidade.
A expectativa é que, com a aprovação definitiva, São Paulo possa avançar em sua política de arborização urbana, criando espaços mais verdes, agradáveis e ambientalmente sustentáveis para seus habitantes.



