SP paga até R$ 36 mil a produtores para salvar araucária da extinção
SP paga até R$ 36 mil a produtores para salvar araucária

O governo de São Paulo deu início a um programa inovador que promete pagar até R$ 36 mil a produtores rurais e até R$ 250 mil a organizações para incentivar a preservação da araucária, árvore nativa da Mata Atlântica que enfrenta sério risco de extinção. A iniciativa, baseada no conceito de pagamento por serviços ambientais, busca conter a perda de habitat da espécie, pressionada tanto por décadas de exploração madeireira quanto pelo avanço das mudanças climáticas.

Implementação inicial em Cunha

O projeto será implementado inicialmente em Cunha, no Vale do Paraíba, região que concentra a maior parte da produção de pinhão no estado de São Paulo. A estratégia combina conservação ambiental com geração de renda, ao estimular o manejo sustentável e o fortalecimento da cadeia produtiva da semente. A ideia é transformar a preservação em uma atividade econômica viável para as comunidades locais.

Espécie sob pressão histórica e climática

A Araucaria angustifolia, conhecida popularmente como pinheiro-brasileiro, já ocupou extensas áreas da Mata Atlântica, especialmente nas regiões Sul e Sudeste do país. Ao longo do século 20, a exploração madeireira reduziu drasticamente sua presença, deixando a espécie restrita a fragmentos isolados. Hoje, além do impacto histórico, a araucária enfrenta uma nova ameaça: as mudanças climáticas. Estudos científicos indicam que o aumento das temperaturas pode reduzir significativamente as áreas adequadas para seu desenvolvimento até 2070, sobretudo em regiões mais quentes. Esse cenário coloca a espécie em situação crítica, combinando perda passada com risco futuro.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Como funciona o incentivo

O programa, chamado PSA Araucária, será coordenado pela Fundação Florestal, vinculada à Secretaria de Meio Ambiente do estado. A proposta é remunerar produtores rurais e organizações que adotem práticas de conservação, como a proteção de árvores já existentes, o plantio de mudas e a recuperação de áreas degradadas. A lógica é inverter o modelo tradicional de uso da terra: em vez de gerar renda a partir da exploração direta da floresta, o programa busca pagar pela preservação e pelo manejo sustentável, incorporando a conservação como atividade econômica.

Economia do pinhão no centro da estratégia

Um dos pilares da iniciativa é o fortalecimento da cadeia do pinhão, cuja coleta é permitida e considerada sustentável. Diferentemente do corte da araucária, que é restrito por lei, a colheita da semente pode gerar renda sem comprometer a sobrevivência da espécie. Em Cunha, produtores mantêm a atividade há gerações. Dados do governo estadual indicam que, entre 2023 e 2025, foram coletadas mais de 1.100 toneladas de pinhão na região. A estimativa para 2026 é de cerca de 368 toneladas, o que reforça a importância econômica da cultura local. Ainda assim, produtores apontam desafios: o envelhecimento das árvores e a falta de novos plantios ameaçam a continuidade da produção, o que torna o incentivo público uma tentativa de estimular a renovação das áreas.

Política ambiental com foco em bioeconomia

O PSA Araucária se insere em uma estratégia mais ampla de bioeconomia, que busca conciliar conservação ambiental e desenvolvimento econômico. Nesse modelo, produtos florestais e serviços ecossistêmicos passam a ser valorizados como ativos, criando novas fontes de renda para comunidades locais. São Paulo já adota programas semelhantes voltados à restauração e ao manejo sustentável, com milhares de famílias envolvidas. A aposta do governo é que esse tipo de política possa ampliar a escala da conservação ao integrar interesses ambientais e econômicos.

Limites e desafios

Apesar do incentivo financeiro, especialistas apontam que programas de pagamento por serviços ambientais têm alcance limitado diante da dimensão do problema. A efetividade dessas políticas depende de continuidade de recursos, fiscalização e adesão dos produtores. No caso da araucária, o desafio é ainda mais complexo devido ao crescimento lento da espécie. Mesmo com novos plantios, os resultados ambientais tendem a aparecer apenas no longo prazo, o que exige políticas consistentes ao longo de décadas.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Entre conservação e urgência climática

A iniciativa paulista ocorre em um contexto de crescente pressão sobre a Mata Atlântica, um dos biomas mais degradados do país, mas ainda essencial para a biodiversidade e a regulação do clima. Embora programas como o PSA Araucária possam contribuir para reduzir perdas e incentivar práticas sustentáveis, eles não eliminam o risco projetado para a espécie. Sem ações mais amplas de proteção ambiental e adaptação às mudanças climáticas, a sobrevivência da araucária continua incerta nas próximas décadas.