Microplásticos na atmosfera contribuem para aquecimento global, aponta estudo
Microplásticos na atmosfera aquecem o planeta, diz estudo

Os micro e nanoplásticos que circulam na atmosfera contribuem para o aquecimento global em uma escala até agora subestimada pela ciência do clima, segundo um estudo publicado nesta segunda-feira (4) na revista Nature Climate Change. A pesquisa estima que essas partículas geram um efeito de aquecimento equivalente a 16,2% do produzido pela fuligem — um dos principais poluentes associados ao aquecimento global, depois dos gases de efeito estufa.

Partículas pigmentadas absorvem mais luz

Os pesquisadores apontam que os modelos climáticos atuais subestimam o efeito do plástico no ar porque, em geral, tratam essas partículas como incolores. No mundo real, no entanto, a maior parte do plástico em circulação tem pigmentos — e a cor faz toda a diferença: partículas pigmentadas absorvem cerca de 75 vezes mais luz solar do que as transparentes.

Os micro e nanoplásticos são fragmentos de plástico de até um milímetro, que se formam quando objetos maiores se decompõem por ação do sol e do desgaste mecânico. Já foram detectados desde o fundo dos oceanos até o topo do Everest e nos núcleos de gelo polar, com registros de deposição contínua desde a década de 1960.

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Como o plástico aquece o ar

Quando partículas suspensas absorvem a luz solar, elas aquecem o ar ao redor — um fenômeno chamado de forçamento radiativo. É o mesmo mecanismo pelo qual a fuligem da queima de combustíveis fósseis e da queimada de florestas contribui para o aquecimento global.

A equipe liderada pelo pesquisador Hongbo Fu, da Universidade Fudan, na China, mediu como diferentes tipos de plástico interagem com a luz, levando em conta tamanho, cor, tipo de polímero e envelhecimento. Os pesquisadores usaram microscopia eletrônica de alta resolução para analisar partículas individuais e combinaram esses dados com simulações de transporte atmosférico.

A cor mostrou ser o principal fator. Plásticos pretos absorvem mais luz, seguidos por amarelos, azuis e vermelhos. Plásticos brancos têm efeito mínimo. O tamanho também conta: as nanopartículas — menores que um micrômetro — absorvem e dispersam mais luz proporcionalmente à sua massa do que os fragmentos maiores. Os nanoplásticos também permanecem mais tempo no ar e chegam a altitudes mais elevadas, ampliando seu impacto.

Um aspecto curioso da pesquisa é que o envelhecimento dos plásticos no ar não muda muito o efeito final. Partículas brancas tendem a amarelar com o tempo e absorver mais luz; já as vermelhas perdem cor e absorvem menos. Os dois efeitos acabam se cancelando, e a capacidade de aquecimento do conjunto se mantém ao longo da vida útil das partículas na atmosfera.

Efeito desigual no globo

Os cientistas combinaram as medições com modelos de transporte atmosférico para estimar o efeito climático global. O resultado é um forçamento radiativo médio de 0,039 watt por metro quadrado para o conjunto das partículas — pequeno em comparação aos gases de efeito estufa, mas significativo quando comparado a outros poluentes já considerados nos modelos climáticos. A distribuição desse efeito, no entanto, é bastante desigual.

Sobre o chamado Giro Subtropical do Pacífico Norte — região conhecida como Grande Mancha de Lixo do Pacífico, onde correntes oceânicas concentram resíduos plásticos —, o aquecimento provocado pelos plásticos chega a ser 4,7 vezes maior que o da fuligem na mesma área. O Mediterrâneo, o leste da América do Norte e o leste da Ásia também aparecem como pontos de aquecimento mais intenso, associados às emissões antrópicas.

O Hemisfério Norte concentra a maior parte do efeito, com um aquecimento 4,6 vezes maior que o do Hemisfério Sul, refletindo a desigualdade na produção e descarte de plástico. Os modelos também mostram variação sazonal, com picos entre abril e julho — quando ciclones e tufões ajudam a redistribuir as partículas pela atmosfera.

"Os micro e nanoplásticos no ar não são apenas uma questão de contaminação ambiental, mas potencialmente um fator climático emergente", escreveu o pesquisador italiano Gilberto Binda, da Universidade de Insubria, em comentário publicado na mesma edição da Nature Climate Change.

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