Uma bromélia (Tillandsia usneoides) pendurada em uma árvore pode ser mais do que um simples ornamento. Um estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) está utilizando essa planta para monitorar a poluição atmosférica em 12 cidades brasileiras. A professora e doutora Natália Cristina de Oliveira, da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru (SP), explicou ao g1 que a bromélia não retira nutrientes do solo, captando-os diretamente da atmosfera, o que a torna um biomonitor natural da qualidade do ar.
Como funciona o biomonitoramento com bromélias
“Elas funcionam como ‘filtros vivos’. Isso permite mapear onde a poluição está mais concentrada e como ela se dispersa no território urbano, servindo como ferramenta ambiental para fomentar políticas públicas de equidade e promoção de saúde”, afirmou a professora. No estudo, as plantas são expostas ao ar em regiões com diferentes condições socioeconômicas e históricos de urbanização. A cidade de Registro (SP), por exemplo, recebeu 120 mudas, que começaram a ser retiradas na última terça-feira (28), após três meses de exposição.
Conhecida como barba-de-velho, a bromélia possui pequenos tricomas, estruturas semelhantes a pelos, que durante a exposição acumulam partículas e metais presentes na atmosfera, como chumbo, cobre e cádmio. Depois de alguns meses, as plantas são coletadas e analisadas em laboratório para identificar e quantificar esses contaminantes, que são extremamente tóxicos para a saúde humana e para a biodiversidade urbana.
Cidades participantes e objetivos do estudo
O trabalho com as bromélias está sendo realizado nas cidades de Registro, Cubatão, São Paulo, São Carlos, São José dos Campos, Lorena, Campinas, Campo Grande, Maringá, Santarém, Arapiraca e Maceió. A iniciativa é do professor Maurício Lamano Ferreira, da Escola de Engenharia da USP. Além da poluição do ar, os pesquisadores coletam outros dados ambientais e de saúde, como arborização urbana via satélite, temperatura, risco de desastres, indicadores sociais e diagnóstico preditivo de doenças crônicas.
“A ideia é simples: produzir conhecimento aplicado que ajude cidades a se tornarem mais saudáveis, resilientes ao clima e socialmente mais justas”, afirmou Natália. Os principais objetivos do estudo incluem entender como o verde urbano mitiga poluição, calor, saúde e desigualdades; testar no Brasil a regra 3-30-300, que consiste em garantir que cada pessoa veja pelo menos três árvores de sua casa, que cada bairro tenha ao menos 30% de cobertura arbórea, e que todos vivam a uma distância máxima de 300 metros de uma área verde; identificar áreas historicamente mais vulneráveis, ambiental e socialmente; e apoiar a criação de políticas públicas mais eficazes e baseadas em ciência.
Resultados preliminares e impacto nas políticas públicas
A professora destacou que os dados científicos serão usados para orientar as políticas públicas brasileiras. Ao longo do processo, os resultados são discutidos com gestores e sociedade, auxiliando o Plano Nacional de Arborização Urbana, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O projeto está em fase de coleta de dados em várias cidades, então os resultados finais ainda não estão consolidados. No entanto, as análises preliminares já mostram padrões consistentes e relevantes.
“Por exemplo, em um dos estudos já conduzidos, observamos que áreas com menor cobertura vegetal apresentam maior ocorrência de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Em contraste, bairros próximos a áreas verdes qualificadas tendem a apresentar menor carga dessas doenças”, afirmou Natália, que é responsável pela parte de saúde do estudo. Além disso, os resultados sugerem que existe um nível mínimo de arborização urbana necessário para proteger a saúde da população, próximo de 30% de cobertura vegetal nos bairros, o que converge com recomendações internacionais recentes. “Em termos práticos, isso reforça uma ideia central do projeto: a vegetação urbana não deve ser vista apenas como elemento paisagístico, mas como uma infraestrutura essencial de saúde pública, especialmente em áreas mais vulneráveis”, finalizou a professora.



