Operação da PF combate fornecimento de combustível para garimpo ilegal em terra indígena
Três indivíduos suspeitos de comercializar ilegalmente combustível para abastecer garimpos clandestinos na Terra Indígena Sararé foram presos preventivamente pela Polícia Federal nesta terça-feira (24). A operação foi cumprida simultaneamente nos municípios de Pontes e Lacerda, Vila Bela da Santíssima Trindade e Aripuanã, no estado de Mato Grosso.
Mandados judiciais e apreensões
Além das prisões, os agentes federais executaram quatro mandados de busca e apreensão nas residências dos investigados. As ordens judiciais foram expedidas pela 2ª Vara Federal da Subseção Judiciária de Cáceres, localizada a aproximadamente 220 quilômetros da capital Cuiabá.
Durante as ações, foram apreendidos 15 mil litros de óleo diesel e um reservatório com capacidade para 15 metros cúbicos em uma fazenda próxima à área de garimpo ilegal. Segundo as investigações, o grupo criminoso teria adquirido mais de 4 milhões de litros de diesel em um período de 21 meses.
Investigação e conexões criminosas
A investigação teve início após fiscalização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), com apoio da Polícia Federal e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). O material apreendido será submetido a análises técnicas para identificar outros possíveis envolvidos na rede criminosa.
De acordo com informações da Polícia Civil, a região da Terra Indígena Sararé, por sua proximidade com a fronteira boliviana, tornou-se uma das principais rotas para o tráfico de drogas. A partir de 2022, organizações criminosas começaram a se infiltrar na área, e em 2024 passaram a atuar diretamente no garimpo ilegal.
Impactos devastadores na comunidade indígena
Uma indígena da etnia Nambikwara Katitaurlu denunciou à TV Centro América que a presença do garimpo ilegal e da facção criminosa Comando Vermelho nos últimos três anos resultou em aumento da violência, bebedeira e mortes dentro do território indígena.
"Eu quero ficar em paz na aldeia. Tem um rapaz que vende drogas, bebidas. Ele trouxe para aldeia e vai matando o próprio indígena. Eu estou sempre lutando, quando eu ando sozinha eu falo que não pode ficar vendendo. Quando ele fica bêbado pode matar a própria esposa", relatou a indígena.
Em outubro do ano passado, Tainá Katitaurlu, filha do cacique, explicou ao g1 que o garimpo destrói a vegetação natural através do desmatamento, além de afastar e matar os animais das florestas que tradicionalmente são caçados pela comunidade para alimentação. Desde a chegada dos garimpeiros, o consumo de proteína animal diminuiu significativamente na aldeia.
Operações integradas e danos ambientais
Uma operação integrada entre forças de segurança foi deflagrada em 1º de agosto do ano passado e já resultou na destruição de 150 escavadeiras hidráulicas, causando prejuízo estimado em mais de R$ 226 milhões ao garimpo ilegal na região, conforme dados do Ministério dos Povos Indígenas.
A Terra Indígena Sararé liderou, em 2024, o ranking das terras indígenas mais desmatadas da Amazônia Legal. Entre 2021 e 2024, o desmatamento associado à área cresceu alarmantes 729%, segundo o relatório Cartografias da Violência na Amazônia 2025.
Dimensão da devastação
O relatório identificou a presença de garimpos ativos dentro da TI Sararé, utilizando escavadeiras hidráulicas, balsas e bombas de sucção. Dos 67 mil hectares do território indígena, mais de três mil já foram devastados pela exploração ilegal de ouro.
Desde 2023, mais de 460 escavadeiras já foram neutralizadas durante ações de fiscalização em Sararé. Os agentes suspeitam que atuam dentro do território indígena aproximadamente dois mil garimpeiros e membros de organizações criminosas, situação que tem gerado frequentes conflitos armados.
O governo federal tem até março deste ano para apresentar um plano de ação completo para expulsar definitivamente os invasores do território indígena, enquanto parte dos criminosos investigados também são suspeitos de envolvimento na destruição da Terra Indígena Yanomami, em Roraima.



