Geleira Hektoria perde 25 km em recuo recorde na Antártida
Geleira Hektoria perde 25 km em recuo recorde

A Nasa divulgou nesta segunda-feira (04) um par de imagens de satélite que registra o avanço do mar sobre a área antes ocupada pela geleira Hektoria, que perdeu 25 quilômetros de extensão entre 2022 e 2023. Esse episódio é considerado o recuo mais rápido já documentado na Antártida para formações do tipo.

Comparação entre 2022 e 2024

Em outubro de 2022, a geleira ainda ocupava uma área contínua, conectada a uma faixa de gelo na frente. Já em março de 2024, a borda recuou, o gelo se fragmentou e o mar aberto passou a ocupar o espaço onde antes havia uma massa sólida. As imagens mostram que o recuo não aconteceu de forma gradual. Ao longo de 2022, a geleira perdeu cerca de 16 quilômetros de uma porção de gelo flutuante. Depois, no fim daquele ano, veio a fase mais intensa: um recuo de aproximadamente 8 quilômetros em apenas dois meses.

Mecanismo do colapso

Os cientistas apontam que a explicação não está apenas no aquecimento, mas também na forma como a geleira está apoiada no solo. Em áreas mais planas, o gelo pode perder contato com a base rochosa e ser levantado pela água do mar, o que reduz a estabilidade e acelera a quebra. Esse mecanismo ajuda a entender por que a mudança ocorreu em etapas rápidas, com grandes porções de gelo se desprendendo em sequência.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

“O que vemos na Hektoria é um exemplo pequeno, mas que mostra o que pode acontecer em outras áreas da Antártida”, disse a glaciologista Naomi Ochwat, pesquisadora do Instituto Cooperativo para Pesquisas em Ciências Ambientais (CIRES).

Terremotos glaciais e impacto no nível do mar

Além do colapso visível por satélite, os cientistas registraram uma série de “terremotos glaciais”, pequenas ondas sísmicas geradas pelo desprendimento de blocos de gelo. Esses tremores confirmaram que o gelo ainda estava preso ao leito rochoso durante o evento, o que significa que a perda contribuiu diretamente para o aumento do nível do mar.

Segundo Ted Scambos, coautor do estudo e pesquisador sênior do CIRES, o episódio muda a percepção sobre a vulnerabilidade da Antártida: “O recuo da Hektoria é um choque. Esse tipo de colapso em velocidade relâmpago muda o que acreditávamos ser possível. Se as mesmas condições se repetirem em geleiras maiores, isso pode acelerar dramaticamente a elevação do nível do mar”.

Dados alarmantes

Os dados indicam que a geleira perdeu cerca de 84 km² de gelo entre novembro de 2022 e março de 2023, com uma taxa de afinamento que chegou a 80 metros por ano — a mais alta já registrada no planeta para um corpo de gelo desse tipo. Estudos anteriores já haviam identificado regiões semelhantes de “planícies de gelo” sob outras geleiras antárticas, como Thwaites e Pine Island, duas das mais críticas para o equilíbrio global. Por isso, os autores alertam que o mapeamento detalhado do relevo sob o gelo é essencial para prever novos eventos de desintegração súbita.

“A Hektoria é pequena, tem o tamanho aproximado da cidade da Filadélfia, mas um evento assim em geleiras maiores seria catastrófico”, alertou Ochwat.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar