El Niño em 2026: cientistas pedem cautela sobre previsões de 'super' evento climático
Imagens de drone mostram avião em meio a alagamento no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, em maio de 2024, durante período de El Niño que pode aumentar chuvas intensas no Sul do Brasil. Este episódio ilustra os impactos potenciais do fenômeno, enquanto modelos climáticos globais sinalizam a formação de um novo El Niño ainda em 2026, com possibilidade de ganhar força expressiva no segundo semestre. Apesar da circulação da palavra "super" em redes sociais, cientistas especializados no tema são os primeiros a pedir cautela, destacando incertezas significativas nas projeções atuais.
Incertezas e probabilidades nas previsões climáticas
Pedro Ivo Camarinha, doutor em Mudanças Climáticas e Desastres e diretor substituto do Cemaden, explica que existem vários elementos associados a essa previsibilidade cheia de incertezas. A mensagem principal é que, embora dados estejam disponíveis, há excesso de consciência sobre o que os dados ainda não conseguem dizer com precisão. O órgão americano NOAA CPC emitiu projeções indicando condições neutras no Pacífico equatorial, mas com transição para El Niño considerada provável a partir de maio-julho de 2026, com 61% de chance. Para o fim do ano, a probabilidade sobe para mais de 90%.
No entanto, os modelos divergem muito sobre a intensidade do fenômeno. Para o trimestre de outubro a dezembro, há maior probabilidade de um El Niño moderado (27%), mas também chances de episódios mais intensos: 20% para forte e 13% para muito forte. Em casos extremos, o aquecimento das águas do Oceano Pacífico pode passar de 2°C acima do normal e se manter por vários meses. Simultaneamente, existe uma chance de 16% de que o fenômeno não se desenvolva de forma significativa, reforçando a necessidade de interpretação cuidadosa dos dados.
Barreira de previsibilidade e complexidade do clima
Os meteorologistas enfrentam a "barreira de previsibilidade da primavera" ou "barreira do outono" no Hemisfério Sul, período entre março e junho em que as condições do Pacífico tropical são naturalmente menos previsíveis. Camarinha alerta que a atmosfera é um sistema caótico, onde pequenas perturbações hoje podem levar a cenários completamente distintos daqui a alguns meses. O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) destaca que valores previstos para setembro variam entre 1,7°C e 3,3°C, uma amplitude enorme que dificulta antecipação de impactos.
Karina Bruno Lima, doutora em climatologia e pesquisadora visitante na Universidade Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, pondera que não se pode cravar ainda, mesmo com vários modelos apontando para El Niño, pois estamos no período mais difícil para previsões confiáveis. Ela acrescenta que o aquecimento global embaralha as cartas, criando um clima em transformação sem precedentes, o que exige cautela adicional nas análises.
Impactos potenciais e fatores de risco no Brasil
O El Niño altera a circulação da atmosfera e pode aumentar a chance de eventos extremos, mas não determina, sozinho, a ocorrência de desastres. Historicamente, no Brasil, o fenômeno está associado a chuvas mais volumosas no Sul e secas severas no Norte e Nordeste, com impactos significativos na Amazônia, como redução do nível dos rios e aumento de queimadas. Camarinha ressalta que o El Niño reorganiza a circulação atmosférica e disponibiliza ingredientes fundamentais para eventos extremos, mas não controla totalmente o clima brasileiro.
Lima reforça que um El Niño coloca o país em estado de atenção, por aumentar a probabilidade de alguns eventos extremos, mas a magnitude dos impactos depende da intensidade do fenômeno, de sua configuração no oceano e de outras condições climáticas. Especialistas destacam que o risco de desastres não está ligado apenas ao El Niño, mas também a vulnerabilidades locais, como características da região, ocupação do território e atuação da defesa civil.
Evolução das previsões e cenários futuros
O diagnóstico atual não é de alarme, mas de atenção. Nos próximos meses, à medida que as condições do oceano e da atmosfera evoluírem, a confiança nas previsões tende a aumentar, especialmente se os ventos alísios enfraquecerem e o aquecimento das águas abaixo da superfície do Pacífico se intensificar. O ECMWF aponta que o sinal oceânico observado em 2026 é mais consistente e intenso do que em 2023, quando um El Niño se confirmou, mas há cautela devido a eventos passados como 2017, onde modelos indicavam aquecimento, mas desenvolveu-se La Niña.
Cada evento de El Niño tem características próprias, com intensidade e impactos dependendo não apenas do Pacífico, mas também da interação com outros sistemas, como o Oceano Atlântico e padrões de circulação atmosférica. Com o planeta já mais quente devido ao aquecimento global, mesmo episódios moderados podem ter efeitos mais fortes do que no passado, exigindo monitoramento contínuo e preparação adequada.



