Risco de super El Niño existe, mas especialistas pedem cautela
Risco de super El Niño existe, mas especialistas pedem cautela

Antes de o El Niño aparecer de vez, o oceano costuma dar sinais mais discretos — e um dos principais já está em curso agora no Pacífico. Uma grande área de água mais quente do que o normal começou a se deslocar ao longo da faixa equatorial, em direção à América do Sul. O fenômeno, conhecido como ondas Kelvin, é monitorado por cientistas porque faz parte do processo que antecede o desenvolvimento do El Niño.

O que é o El Niño?

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico. Quando o fenômeno está ativo, o planeta costuma registrar calor acima da média. Ele acontece com frequência a cada dois a sete anos. No Brasil, os efeitos costumam ser desiguais: o Sul tende a ter mais chuva, enquanto áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos.

Ondas Kelvin: o sinal no oceano

O que os pesquisadores apontam como sinal da chegada do fenômeno é o deslocamento de uma grande área de água mais quente do que o normal acontecendo principalmente abaixo da superfície. Tecnicamente, o movimento da água mais quente é chamado de ondas Kelvin. O nome vem do físico britânico Lord Kelvin, que no século 19 descreveu como a rotação da Terra pode aprisionar certos tipos de onda junto ao equador ou a uma costa. Elas não são ondas como as que quebram na praia, são estruturas oceânicas de larga escala, invisíveis a olho nu, que se propagam ao longo do equador e transportam grandes volumes de calor de oeste para leste no Pacífico. Na superfície, a variação de altura que produzem é de apenas 5 a 10 centímetros, mas sua extensão lateral pode chegar a centenas de quilômetros. Por isso, elas são detectadas principalmente por satélites que medem a altura do nível do mar, como os da NASA e da agência espacial europeia.

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O que os dados mostram agora

Pelas imagens de satélite mais recentes, é possível dizer que há atualmente no Pacífico equatorial uma onda Kelvin de tamanho considerável em deslocamento. Josh Willis, oceanógrafo do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, diz que esse padrão de agora de aquecimento subsuperficial e de nível do mar no Pacífico lembra o de eventos de El Niño de intensidade moderada observados nas últimas três décadas. "Os eventos muito grandes de 2015 e 1997 tinham ondas Kelvin muito maiores em abril. Isso aponta para um evento de tamanho médio", afirma Willis.

Relação entre ondas Kelvin e El Niño

Quando uma onda Kelvin avança pelo Oceano Pacífico, ela empurra a água quente para mais perto da superfície e dificulta a subida da água fria que normalmente vem das profundezas, especialmente na região do Peru e do Equador. Com menos água fria chegando à superfície, o mar fica mais quente ali. E isso muda o “motor” das chuvas tropicais, que tende a se deslocar mais para o leste do Pacífico, bagunçando os padrões de clima em várias partes do mundo. Na prática, esse movimento costuma favorecer mais chuva em áreas como o sul dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, aumenta o risco de períodos mais secos no Brasil durante o verão.

Previsões da Organização Meteorológica Mundial

Justamente por isso, e por causa do aquecimento acelerado das temperaturas da superfície do mar, do acúmulo de calor abaixo da superfície e do alinhamento dos modelos climáticos globais, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgou na última sexta-feira (24) que há alta confiança para o início do El Niño ainda em 2026. Apesar disso, a avaliação da agência da ONU é de que esse pode ser um evento forte. A organização ressalva, contudo, que as previsões nessa época do ano ainda têm limitações, e a confiança tende a aumentar após abril.

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Por que ainda é cedo para certezas

Uma onda Kelvin, por si só, não garante o desenvolvimento do El Niño. Para que o fenômeno se consolide, é necessário que o oceano e a atmosfera entrem em um ciclo de retroalimentação: o aquecimento do Pacífico leste precisa enfraquecer os chamados ventos alísios, o que por sua vez gera novas ondas Kelvin e mantém o calor se espalhando. Os ventos alísios sopram normalmente de leste para oeste no Pacífico, empurrando água quente para o lado da Ásia e mantendo água fria perto da América do Sul. Quando enfraquecem, essa água quente escorrega de volta para leste e esse acúmulo de calor no Pacífico oriental é o El Niño. É um ciclo: oceano mais quente enfraquece os alísios, alísios mais fracos aquecem ainda mais o oceano. Se esse ciclo não se estabelecer, o aquecimento pode se dissipar sem virar um El Niño propriamente dito. Por ora, Willis avalia que o cenário atual aponta para um evento de intensidade moderada, mas ressalva que maio e junho trarão uma imagem muito mais clara do que está por vir. "Ainda é abril, e normalmente só começamos a ter uma visão mais clara de como será o El Niño em maio e junho", diz o especialista. A OMM deve divulgar uma nova atualização em maio, com orientações mais precisas para o período de junho a agosto.

Possíveis impactos no Brasil

Historicamente, o El Niño altera o padrão de chuva e temperatura no país e causa: aumento de chuva no Sul, com risco maior de eventos extremos; redução de chuvas no Norte e em partes do Nordeste; mais irregularidade nas precipitações no Sudeste e Centro-Oeste; maior frequência de ondas de calor. Segundo especialistas, um dos principais efeitos esperados é o aumento de períodos prolongados de calor, especialmente na primavera e no verão. Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas destacam que o aquecimento global continua sendo o principal fator por trás das mudanças no clima. Com os oceanos já mais quentes do que a média histórica, a expectativa é de que os próximos meses sigam registrando temperaturas elevadas em várias regiões do planeta.