Neve em Mato Grosso: o histórico fenômeno de 1975 que surpreendeu o estado
Neve em Mato Grosso: fenômeno histórico de 1975

Neve em Mato Grosso: o improvável fenômeno climático de 1975

Imagine acordar em Mato Grosso, estado conhecido pelo calor intenso, e encontrar as ruas cobertas por uma fina camada branca de neve. Esse cenário improvável tornou-se realidade em julho de 1975, dois anos antes da divisão que criou o estado de Mato Grosso do Sul, quando o então sul de Mato Grosso enfrentou um frio extremo que surpreendeu moradores e entrou para a história climática da região.

O dia em que a neve caiu no calor do Centro-Oeste

Entre os dias 6 e 7 de julho de 1975, termômetros registraram temperaturas de até 2,4°C abaixo de zero em regiões como Ponta Porã e Bandeirantes, que hoje pertencem a Mato Grosso do Sul. O fenômeno transformou completamente a paisagem local, com ruas encobertas por neve e moradores saindo de casa para testemunhar o evento climático incomum. O silêncio matinal foi quebrado pelos passos curiosos de quem queria confirmar com os próprios olhos o que parecia impossível: estava nevando em Mato Grosso.

Dados do Arquivo Público de Mato Grosso e edições digitalizadas de jornais impressos da época documentam os impactos significativos dessa onda de frio histórica. Um decreto publicado em agosto de 1975 destinou 200 mil cruzeiros à Prefeitura de Campo Grande para custear despesas com os danos causados pela geada intensa. A agricultura e pecuária locais sofreram prejuízos consideráveis, com muitas lavouras de café e trigo registrando perda total devido às condições climáticas extremas.

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O testemunho de quem viu a neve cair

O meteorologista Natalio Abraão, hoje com 79 anos, presenciou pessoalmente a neve caindo do céu e realizou o primeiro registro oficial da temperatura naquele dia histórico. Na época com 34 anos, ele trabalhava no setor de Proteção ao Voo em Ponta Porã, área responsável por fornecer informações essenciais para a segurança das operações aéreas nos aeroportos da região.

"É uma coisa que impressiona, né? Eu já tinha visto geada, plantas congeladas, mas a neve caindo do céu era novidade. Você saía andando e via", recordou Abraão em entrevista. Mesmo tendo atuado profissionalmente em cidades como Recife e Canoas, no Rio Grande do Sul — estado conhecido pelas baixas temperaturas —, ele nunca havia presenciado fenômeno semelhante ao que ocorreu em Mato Grosso.

Segundo suas observações, o estado enfrentou frio intenso durante todo o mês de julho de 1975, mas nos dias 6 e 7 foi registrada uma das pressões atmosféricas mais altas já observadas na região, em torno de 1035 hPa — significativamente acima da média considerada normal de 1013 hPa. Quanto maior a pressão atmosférica, mais favorecidas ficam as condições para queda de temperatura, explicou o meteorologista, o que resultou na marca histórica de 2,4°C abaixo de zero.

Explicação científica para o fenômeno raro

O meteorologista Guilherme Borges esclareceu que o fenômeno registrado em 1975 esteve associado a uma forte onda de frio provocada pela entrada de uma massa de ar frio continental. "O sistema veio acompanhado de precipitação sobre uma camada de ar muito fria, o que favoreceu a ocorrência de neve na região", detalhou.

Borges explicou ainda que ondas de frio durante o inverno são relativamente comuns, mas a combinação específica de fatores tornou este evento particularmente notável: precipitação sobre uma camada extremamente fria criou as condições ideais para a formação de neve. O meteorologista destacou que outro fator determinante foi a atuação de uma massa de ar polar muito potente naquele período.

Pode acontecer novamente?

Segundo os especialistas, a ocorrência de neve em Mato Grosso é possível, mas extremamente rara. Para que o fenômeno se repita, seria necessária uma combinação específica de condições climáticas:

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  • Atuação de uma massa de ar polar muito potente
  • Presença de uma camada de ar muito frio próxima à superfície
  • Precipitação sobre essa camada de ar frio
  • Ocorrência em áreas de maior altitude

"Hoje, o clima está cada vez mais seco, inclusive no inverno, e o calor tem se intensificado na atmosfera por causa do aquecimento global. Isso deixa a ocorrência de neve bem menos provável. É um evento pouco suscetível de acontecer, mas não está totalmente descartado", ponderou Guilherme Borges.

Contexto histórico e diferenças regionais

Para a pesquisadora Juliana Rosa, do Núcleo de Pesquisa em História (NPH) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o espanto em torno do episódio ocorre porque Mato Grosso é tradicionalmente conhecido pelo clima quente, com temperaturas elevadas ao longo do ano. No entanto, ela ressalta que o fenômeno registrado em 1975 não deve ser entendido como um evento completamente isolado, mas como um episódio documentado e divulgado à época.

A pesquisadora destacou ainda as diferenças climáticas dentro do próprio estado naquele período. Cidades como Dourados, Bandeirantes e Ponta Porã ficam a mais de 600 km de Cuiabá e apresentam condições climáticas distintas das da atual capital mato-grossense. Essas diferenças regionais ajudam a explicar por que o fenômeno ocorreu especificamente no sul do estado.

Vale lembrar que, em 1975, a divisão estadual ainda não havia ocorrido. A criação de Mato Grosso do Sul aconteceria apenas dois anos depois, em 11 de outubro de 1977, por decreto do presidente Ernesto Geisel. Juliana Rosa observa uma diferença de perspectiva sobre este processo histórico: "Para nós, de Mato Grosso, ocorreu a divisão do estado. Para eles, de Mato Grosso do Sul, o que houve foi a criação de um novo estado", afirmou, destacando como essa diferença de percepção aparece tanto na historiografia quanto na opinião pública.

O episódio da neve em 1975 permanece como um marco na memória climática da região, lembrando que mesmo em áreas tradicionalmente quentes como Mato Grosso, a natureza pode surpreender com eventos raros e extraordinários que desafiam as expectativas climáticas estabelecidas.