Mercado de energia em alerta com possível chegada do El Niño e risco de bandeiras tarifárias mais caras
El Niño pode elevar conta de luz com bandeiras tarifárias mais caras

Mercado de energia em estado de atenção com possível chegada do El Niño em 2026

A possibilidade de transição do fenômeno La Niña, atualmente vigente, para o El Niño nos próximos meses coloca o setor elétrico brasileiro em alerta máximo. Especialistas apontam que essa mudança climática pode impactar diretamente o balanço energético nacional e, consequentemente, o custo da eletricidade para os consumidores ao longo de 2026.

Contexto climático e preocupações com os reservatórios

Após um período de chuvas abaixo da média nos últimos meses, a previsão indica que as precipitações de fevereiro e março não serão suficientes para eliminar o déficit acumulado desde outubro. A perspectiva de um El Niño, que tende a elevar as temperaturas e reduzir as chuvas em áreas críticas de reservatórios, aumenta a preocupação com os níveis de armazenamento nas hidrelétricas até o final do ano.

Atualmente, instituições de monitoramento climático já observam uma tendência de aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos, referência no rastreamento de fenômenos climáticos, mantém a presença do La Niña, mas aponta 75% de chance de transição para neutralidade até março. Meteorologistas aguardam um anúncio oficial ainda este mês.

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João Hackerott, CEO da consultoria Tempo OK, explica: "No Centro Europeu de Previsões Meteorológicas, dos 51 cenários analisados, 50 indicam a entrada no El Niño, de fraco a moderado, até junho. O modelo norte-americano ainda aponta neutralidade, mas o multimodelo do IRI coloca 60% de probabilidade de ter El Niño este ano, o que é bastante significativo."

Impactos regionais e no sistema elétrico

O El Niño traria como consequência o aumento das chuvas no Sul do país e secas no Norte e Nordeste. Já a região central, onde se concentram os principais reservatórios hidrelétricos, enfrentaria irregularidade nas precipitações e risco de ondas de calor. Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus, salienta a necessidade de acompanhar o período de transição, mas considera haver "grande chance" de El Niño no segundo semestre, trazendo desafios adicionais para o sistema elétrico brasileiro.

Matheus Machado, especialista de inteligência de mercado do Grupo Bolt, alerta que o El Niño e o consequente aumento das temperaturas podem impulsionar a demanda de energia além do crescimento projetado de 4,5% para 2026. "Quando vem uma onda de calor, a carga responde. Teremos um ano com diversas pressões de crescimento da demanda, especialmente no Norte e Nordeste, onde as taxas superam 7%."

Perspectivas para as bandeiras tarifárias

A possibilidade de El Niño no segundo semestre reforça a perspectiva de acionamento de bandeiras tarifárias mais caras ao longo de 2026. Especialistas já apontam para mais meses de bandeira vermelha em comparação com 2025, devido às chuvas menos volumosas que a média histórica nos meses de outubro a março.

Atualmente, vigora a bandeira verde para fevereiro, sem cobrança adicional na conta de luz. No entanto, o quadro deve mudar a partir de abril, quando termina o período úmido. Matheus Machado não descarta o acionamento da bandeira amarela já em abril, com custo adicional de R$ 1,885 a cada 100 quilowatts consumidos. "Passando fevereiro, já começa a ficar muito difícil que mude muito o viés", disse, referindo-se à tendência de preços crescentes no período seco.

Fred Menezes, diretor de Comercialização da Armor Energia, prevê bandeira amarela em maio, escalando para vermelha a partir de junho, com retorno à amarela somente em novembro ou dezembro. "A potencial configuração de um El Niño pode dificultar o retorno à bandeira verde nos últimos meses do ano", afirmou.

Vinícius David, especialista de Estudos de Mercado da Envol, também considera maior a chance de bandeira amarela a partir de maio, com bandeira vermelha apenas em julho e possibilidade de patamar 2 ao longo do período seco. A consultoria projeta bandeira amarela ou verde apenas nos últimos dois meses de 2026.

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David ressalta que o El Niño não tem efeito direto previsível nas chuvas das áreas de influência dos reservatórios, "porém tem efeito secundário de temperaturas mais altas, que leva a carga mais alta, o que pode pressionar os preços para cima".

Conclusão

O setor elétrico brasileiro se prepara para um ano desafiador, com a combinação de fatores climáticos e de demanda pressionando os custos de energia. A vigilância sobre a evolução do El Niño e suas implicações nos reservatórios será crucial para definir o cenário tarifário que afetará diretamente o bolso dos consumidores.