Presidente Prudente foi 'berçário' de crocodilomorfos há 90 milhões de anos
Durante o período Cretáceo Superior, entre 90 e 70 milhões de anos atrás, crocodilomorfos escolheram o que hoje é Presidente Prudente, no interior de São Paulo, como um verdadeiro "berçário" para suas ninhadas. Uma pesquisa de mestrado liderada pela paleontóloga prudentina Giovanna Moraes Xavier da Paixão documentou três ninhadas com um total impressionante de 83 ovos fósseis, as maiores já registradas no mundo para esse grupo de répteis pré-históricos.
Descoberta das ninhadas fósseis
As escavações, coordenadas pelo paleontólogo Willian Roberto Nava, ocorreram entre 2020 e 2022 no Sítio Paleontológico José Martin Suarez, localizado no Parque dos Girassóis em Presidente Prudente. Formado há cerca de 87 milhões de anos, o sítio preservou uma fauna diversa sob camadas de sedimentos, incluindo crocodilomorfos, aves, tartarugas, peixes e dinossauros carnívoros, no fim da "Era dos dinossauros", quando a região integrava a Bacia Bauru.
Em 2020, a primeira ninhada foi descoberta, com cerca de 20 ovos preservados. Em 2021, uma segunda ninhada, contendo 47 ovos, foi localizada nas proximidades, exigindo um trabalho manual minucioso para remoção e transporte até o Museu de Paleontologia de Marília. Em 2022, uma terceira ninhada, com uma quantidade menor de ovos, foi encontrada por uma equipe internacional de pesquisadores, consolidando a área como um local de postura significativo.
Análises e descobertas científicas
Giovanna Paixão conduziu análises laboratoriais por aproximadamente dois anos para seu mestrado na Universidade Federal do Pampa, utilizando técnicas avançadas como tomografia computadorizada de alta resolução, microscopia eletrônica de varredura e petrografia. O estudo, publicado no Journal of Vertebrate Paleontology, envolveu 10 coautores e focou em duas frentes principais:
- Análise macro: Investigou a arquitetura dos ovos, a forma de deposição e aspectos tafonômicos.
- Análise micro: Examinou a ultraestrutura das cascas, incluindo espessura e características microscópicas.
A diagnose confirmou que os ovos pertencem a crocodilomorfos do grupo Notosuchia, répteis de pequeno a médio porte, como o Baurusuchus e Mariliasuchus, já conhecidos na região. A alta densidade de poros nas cascas sugere um ambiente úmido, favorecendo trocas gasosas para os embriões.
Comportamento reprodutivo e evolução
As ninhadas de 15, 21 e 47 ovos superam amplamente os registros anteriores, que geralmente não passavam de cinco ou seis ovos. Isso indica um comportamento reprodutivo distinto, com prole numerosa e possivelmente menos cuidado parental, associado a ambientes ricos em recursos. A variação nas formas dos ninhos sugere que diferentes fêmeas ou múltiplos eventos de postura podem ter ocorrido.
Willian Nava destacou a relevância do achado, transformando um terreno antes considerado sem importância em um tesouro paleontológico. Giovanna Paixão, como prudentina nata, expressou orgulho em contribuir para a valorização da riqueza fossilífera local, realizando um sonho pessoal e científico.
Esta descoberta não apenas enriquece o conhecimento sobre crocodilomorfos, mas também oferece insights sobre a evolução das espécies e suas interações com o ambiente, reforçando a importância da paleontologia para compreender a história da vida na Terra.



