Pesquisadores do Acre desenvolvem pomada cicatrizante para pets com base na biodiversidade amazônica
Uma inovação genuinamente acreana está prestes a chegar ao mercado veterinário. Pesquisadores do Instituto Federal do Acre (Ifac) e da Universidade Federal do Acre (Ufac) desenvolveram uma pomada que promete acelerar significativamente a cicatrização de feridas em cães e gatos. Batizada de Cicapet, o produto já teve seu pedido de patente registrado junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) no dia 3 de março deste ano, marcando um passo crucial para sua futura comercialização.
Ciência local transformando biodiversidade em solução tecnológica
Segundo a doutoranda em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia, Adna Rocha de Araújo Maia, a formulação da Cicapet representa um exemplo concreto de como a riqueza natural da região pode ser transformada em avanços tecnológicos. "A formulação da Cicapet é baseada em ativos naturais provenientes da flora amazônica, com destaque para compostos bioativos extraídos de espécies com reconhecido potencial cicatrizante e antimicrobiano", explicou. Esses compostos atuam no controle da inflamação e na proteção contra infecções, oferecendo uma alternativa natural e eficaz para o cuidado animal.
A pesquisa foi conduzida sob orientação do professor Luis Eduardo Maggi, especialista em Biodiversidade e Biotecnologia da Ufac, e do professor Marcelo Ramon da Silva Nunes, do Ifac, especialista em biofísica e nanotecnologia e cocriador do produto. "A expectativa é que, em breve, o mercado conte com um produto para pets genuinamente acreano, desenvolvido a partir da ciência local e voltado ao bem-estar animal", acrescentou Adna, destacando o orgulho regional envolvido no desenvolvimento.
Taboca amazônica: a base revolucionária da pomada
Conforme detalhou o professor Marcelo Ramon, a pomada recebeu o nome Cicapet devido à sua combinação fitoterápica, que utiliza matérias-primas vegetais como folhas, raízes e flores. "As nossas pesquisas nos fizeram chegar à composição de um produto fitoterápico utilizando a carboximetilcelulose (CMC), um derivado da taboca, base do nosso produto", afirmou. A taboca, uma espécie de bambu nativa da Amazônia, apresenta características notáveis:
- Pode atingir de 8 a 20 metros de altura
- Cresce em média até 20 centímetros por dia
- Regenera-se rapidamente, sendo considerada de baixo impacto ambiental
- É rica em celulose e compostos úteis para biotecnologia, apesar de ser espinhosa
O professor ressaltou ainda que o Acre possui a maior concentração de tabocal nativo do mundo, superando até mesmo regiões da África e Ásia. "Dentro da Amazônia, o Acre é o estado que mais concentra essa espécie", citou, enfatizando a vantagem local na utilização desse recurso.
Nanotecnologia potencializando os efeitos naturais
A tecnologia empregada na formulação permite manipular a matéria-prima em escala atômica e molecular, criando soluções inovadoras como a pomada. "A gente potencializa as gotículas de óleos essenciais com a taboca para virar uma nanoemulsão que é a mistura desses produtos, com isso, conseguimos gerar um produto que vem apresentando resultados positivos na cicatrização de tecidos epidêrmicos em cães e gatos", destacou Marcelo Ramon. Essa abordagem combina princípios ativos de óleos amazônicos e outros bioativos naturais, potencializados através da nanotecnologia para maximizar a eficácia.
Da pesquisa à startup: o caminho da inovação
A pesquisa, iniciada em maio de 2025, evoluiu para a criação da startup Cicapet, através da Incubadora de Empresas do Ifac. O objetivo da empresa é desenvolver e comercializar preparações farmacêuticas de forma segura e natural, sem agredir a pele dos animais. Este não é o primeiro produto inovador do grupo: em julho do ano passado, foi desenvolvido um curativo feito com bambu amazônico que protege feridas, é absorvido pela pele e ajuda a preservar o meio ambiente, sendo inclusive apresentado na prévia da COP30 em Belém.
Com o pedido de patente registrado em regime de cotitularidade entre Ufac e Ifac, a próxima etapa será a produção em escala e a comercialização da pomada Cicapet. Este projeto ilustra como a ciência regional pode gerar soluções práticas que beneficiam tanto a saúde animal quanto a valorização da biodiversidade amazônica, promovendo desenvolvimento tecnológico com bases sustentáveis e locais.



