Morre aos 95 anos Rubens Villela, pioneiro brasileiro na Antártida e referência em ciência climática
O professor Rubens Nadal Junqueira Villela, uma figura emblemática para o desenvolvimento científico e para os debates sobre as mudanças climáticas no Brasil, faleceu na madrugada desta quarta-feira (21), em São Paulo, aos 95 anos. A causa da morte não foi divulgada. Villela era professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP) e residia há anos na capital paulista.
Da infância em Franca ao sonho antártico
Durante a infância, Villela viveu em Franca, no interior de São Paulo, cercado por plantações de café. Foi nesse ambiente que nasceu um sonho improvável para um menino do interior: conhecer a Antártida. O fascínio pelo continente gelado amadureceu ao longo dos anos e se transformou em uma trajetória científica singular e inspiradora.
O interesse inicial deu lugar a uma formação técnica e acadêmica sólida. Rubens tornou-se radioamador e estudou meteorologia nos Estados Unidos, área em que passou a atuar profissionalmente. Nesse período, ele acompanhou expedições antárticas por meio de comunicações de rádio, produziu estudos e artigos, colaborou com pesquisadores internacionais e usou a imprensa brasileira como plataforma para defender a importância estratégica e científica da Antártida para o Brasil.
Pioneirismo na Antártida e expedições históricas
Em 1960, após anos de articulação, Villela integrou uma expedição norte-americana a bordo do quebra-gelo Glacier. No ano seguinte, tornou-se o primeiro brasileiro a pisar no Polo Sul geográfico, como relatou em texto autobiográfico sobre a experiência. "A expedição do Glacier, no qual estive embarcado de dezembro de 1960 a abril de 1961, foi para mim muito além da realização dos meus sonhos. Exploramos uma região inteiramente desconhecida do continente, a chamada 'costa fantasma' (Costa de Eights), ficamos muitos dias apresados nos gelos, vivemos uma série de aventuras", escreveu.
O primeiro emprego de Villela em São Paulo foi conquistado aos 18 anos, como radiotelegrafista em uma agência de notícias. Foi nessa condição que conseguiu embarcar na expedição, inicialmente como representante da imprensa. Já em viagem, recebeu do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) o título de observador científico, o que lhe garantiu o posto de primeiro brasileiro a integrar formalmente um grupo científico em atividade na Antártida.
Participação na primeira expedição brasileira e legado científico
Apesar do pioneirismo, Villela costumava destacar como ainda mais relevante sua participação na primeira expedição brasileira ao continente. O meteorologista integrou toda a preparação do navio oceanográfico Prof. Wladimir Besnard, da USP, que partiu de Santos em 1982. Ele foi um dos 12 pesquisadores que, ao lado de 24 tripulantes, desbravaram os mares do Sul e asseguraram uma posição inédita ao Brasil na comunidade científica internacional.
Além de conduzir pesquisas meteorológicas, Rubens foi responsável pela segurança da viagem, elaborando previsões do tempo e cartas sinóticas — mapas meteorológicos produzidos a partir de informações recebidas via rádio. Ao longo da carreira, participou de outras cinco expedições à Antártida, consolidando um legado fundamental para a ciência brasileira e para a compreensão do papel estratégico do continente gelado no sistema climático global.
Rubens Villela deixou uma marca indelével como divulgador científico e referência no debate sobre as mudanças climáticas, inspirando gerações de pesquisadores e fortalecendo a presença do Brasil em fóruns científicos internacionais.