A comunidade científica está de luto com a morte da chimpanzé Ai, um verdadeiro ícone dos estudos sobre cognição animal. Ela faleceu na última sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, aos 49 anos, devido a uma falência múltipla de órgãos e doenças relacionadas à idade avançada. A informação foi confirmada pelo Centro para as Origens Evolutivas do Comportamento Humano da Universidade de Quioto, no Japão.
Uma vida dedicada à ciência
Nascida na África Ocidental, Ai chegou à Universidade de Quioto em 1977, onde sua jornada extraordinária começou. Seu nome, que significa "amor" em japonês, tornou-se sinônimo de descobertas fascinantes. Ao longo de décadas, ela participou de uma série de pesquisas pioneiras sobre percepção, aprendizagem e memória, que ampliaram drasticamente a compreensão humana sobre a inteligência dos primatas.
O legado cognitivo de Ai é impressionante. Conforme detalhado pelo primatólogo Tetsuro Matsuzawa em 2014, ela dominava um repertório vasto: reconhecia mais de 100 caracteres chineses, todo o alfabeto da língua inglesa, os algarismos arábicos de zero a nove e conseguia identificar 11 cores diferentes.
Feitos notáveis e o apelido de "gênio"
Os experimentos com Ai eram meticulosos e reveladores. Em um deles, os pesquisadores apresentavam a ela uma tela de computador que exibia o caractere chinês para a cor rosa, acompanhado de um quadrado rosa e outro de cor alternativa, como roxo. Consistentemente, a chimpanzé escolhia o quadrado que correspondia ao significado do caractere.
Sua capacidade de associação ia além. Quando via uma maçã real, Ai usava uma tela sensível ao toque para selecionar formas geométricas – um retângulo, um círculo e um ponto – e assim desenhar uma representação virtual da fruta. Essas demonstrações de cognição avançada renderam-lhe destaque na mídia internacional e o apelido carinhoso de "gênio". Seus feitos foram documentados em artigos acadêmicos de prestígio, incluindo publicações na revista Nature.
Legado familiar e contribuição para a ciência
O impacto de Ai transcende sua própria vida. No ano 2000, ela deu à luz um filho chamado Ayumu, que herdou e até superou algumas de suas habilidades, atraindo ainda mais atenção para os estudos sobre a transmissão de conhecimento entre gerações de primatas.
O centro de pesquisa da Universidade de Quioto enfatizou a importância fundamental do trabalho com Ai. Segundo os cientistas, ela ajudou a estabelecer "um quadro experimental para compreender a mente do chimpanzé", fornecendo uma base crucial para que especialistas pudessem refletir sobre a evolução da própria mente humana. "Ai era muito curiosa e participava ativamente destes estudos, revelando pela primeira vez diversos aspectos da mente do chimpanzé", completou a instituição.
A morte da chimpanzé Ai marca o fim de uma era nos estudos de cognição animal, mas seu legado permanece vivo. Cada caractere chinês que ela reconheceu, cada cor que identificou e cada teste que realizou contribuíram para desvendar os mistérios da inteligência, deixando uma contribuição indelével para a ciência e nosso entendimento sobre nossos parentes mais próximos no reino animal.