Estudante de 14 anos do Recife cria bomba d'água eólica com materiais recicláveis
Um jovem talento recifense de apenas 14 anos está conquistando reconhecimento no Brasil e no exterior ao transformar uma simples ideia escolar em uma solução inovadora para enfrentar a escassez de água em regiões afetadas pela seca. Lucas Figueiredo, ainda cursando o ensino fundamental, desenvolveu uma bomba de água movida exclusivamente a energia eólica, construída com materiais recicláveis e projetada para funcionar sem qualquer dependência de energia elétrica.
Da feira de ciências ao cenário internacional
O projeto nasceu modestamente como parte de uma feira de ciências no Colégio Santa Maria, localizado na Zona Sul do Recife, mas rapidamente evoluiu com melhorias técnicas e ganhou destaque em competições científicas. A invenção já rendeu diversas premiações em eventos nacionais e internacionais, incluindo uma medalha de ouro na International Greenwich Olympiad, em Londres, e uma participação na prestigiada Milset Expo-Sciences International, realizada em Abu Dhabi.
Em entrevista, Lucas revelou que a motivação para criar a bomba surgiu no 6º ano, em 2022, quando foi desafiado pela escola a desenvolver um trabalho com impacto social significativo. Inspirado pelo filme "O Menino Que Descobriu o Vento", que retrata as dificuldades de acesso à água em comunidades carentes, ele buscou criar uma solução acessível e de baixo custo.
"A escola disse que era para a gente fazer um trabalho para a feira de ciências que tivesse alguma causa social. Eu pensei se daria para fazer uma bomba de água que fosse acessível e que não custasse tanto para essas comunidades, utilizasse materiais baratos e não precisasse de energia elétrica", explicou o estudante.
Como funciona a bomba eólica
A bomba desenvolvida por Lucas opera de maneira engenhosa e eficiente:
- Uma hélice, semelhante à de um ventilador, capta a força do vento disponível no local.
- O movimento da hélice aciona um compressor adaptado para o sistema.
- O compressor envia ar por uma mangueira conectada a uma bomba submersa na água.
- A bomba controla uma válvula que abre e fecha ciclicamente ao longo do tempo.
- Quando a água preenche completamente a bomba, a pressão do ar empurra o líquido para fora, permitindo o bombeamento sem qualquer consumo de energia elétrica.
Segundo o jovem inventor, o funcionamento básico foi sendo ajustado e refinado ao longo dos anos, à medida que ele compreendia melhor os limites e as possibilidades do projeto. "Quando essa hélice gira, com a força do vento, o compressor começa a funcionar", detalhou Lucas, enfatizando que a pressão do ar é o elemento central para elevar a água, dispensando completamente ligações à rede elétrica.
Evolução e reconhecimento do projeto
A evolução da bomba eólica passou também pela participação em feiras científicas além do ambiente escolar. No 7º ano, em 2023, Lucas decidiu apresentar a invenção em eventos maiores e buscou o apoio da professora Isabel Luz Guaraná, que passou a orientar formalmente a pesquisa. "Quando terminou tudo, que a gente finalizou, eu conversei com ele e disse ‘Lucas, esse projeto dá para gente apresentar fora do colégio’", relembrou a educadora.
O estudante conquistou inicialmente uma medalha de bronze na Feira Nordestina de Ciência e Tecnologia (Fenecit), o que garantiu credenciamento para a competição internacional em Londres. Para alcançar esse novo patamar, ele contou com a ajuda do tio, Luciano Figueiredo, engenheiro elétrico que colaborou com ajustes técnicos cruciais no protótipo. Posteriormente, vieram novas participações em feiras, incluindo outra medalha de ouro na Fenecit em 2024 e a seleção para a Milset Expo-Sciences International de 2025.
Testes práticos e mentoria especializada
Durante o desenvolvimento, Lucas e sua equipe buscaram entender de perto a realidade das comunidades que poderiam se beneficiar da invenção. Eles visitaram pequenos agricultores em Bom Jardim, no Agreste de Pernambuco, onde conversaram com moradores e realizaram testes práticos. Segundo a professora Isabel, boa parte dos experimentos iniciais foi realizada com recursos simples e muita observação. "Colocamos a bomba na piscina do colégio, foram feitos todos os experimentos na piscina. A gente via a posição de vento, qual o melhor horário", relatou.
A dedicação do estudante também chamou a atenção de especialistas externos. Há cerca de dois meses, Lucas passou a receber orientações do professor Eduardo Loureiro, da Escola Politécnica de Pernambuco (Poli/UPE), especialista em mecânica dos fluidos. "Eu conversei com o pai dele, com Lucas, e fiquei fascinado pelo menino", contou o professor, destacando que o diferencial do projeto está no foco social. "Ele se preocupa porque ele quer que esse projeto dê certo para atender a comunidade sem renda".
Eduardo também ressaltou que a escolha pela energia eólica exige cuidados técnicos específicos. "Ela precisa realmente de um vento com uma certa velocidade, então é uma coisa que não dá certo em todo lugar", explicou, acrescentando que, em áreas adequadamente ventiladas, a solução pode ser viável e extremamente promissora.
Próximos passos e objetivos futuros
Com o apoio técnico mais recente, o projeto entra agora em uma nova fase de desenvolvimento. A ideia é substituir adaptações improvisadas por peças especialmente desenvolvidas para a bomba, visando maior eficiência e redução de custos. "Agora a gente está encaminhando para outro passo, que é retirar todas as ‘gambiarras’ e criar um protótipo 100% nosso", afirmou Lucas.
Entre as mudanças planejadas estão a produção de um novo compressor e de uma hélice específica para esse tipo de uso, além de uma válvula própria, projetada para baratear e melhorar o funcionamento do sistema. A expectativa do jovem inventor é concluir o novo modelo e colocá-lo em funcionamento em condições reais, começando justamente pela comunidade de Bom Jardim, onde os testes iniciais foram realizados.
O projeto de Lucas Figueiredo não apenas demonstra o potencial da inovação jovem, mas também oferece uma esperança concreta para comunidades que enfrentam desafios hídricos, combinando criatividade, sustentabilidade e um profundo compromisso social.