Após décadas de exílio, o fóssil do dinossauro Irritator challengeri está prestes a retornar ao Brasil. O crânio do grande predador carnívoro, que viveu há cerca de 113 milhões de anos na região da Bacia do Araripe, no Ceará, foi extraído ilegalmente e levado para a Alemanha na década de 1990. Agora, graças a um acordo firmado em abril entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler alemão Friedrich Merz, o fóssil será repatriado e depositado no Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, vinculado à Universidade Regional do Cariri (Urca).
Uma história de crime e fraude
A trajetória do Irritator challengeri é marcada por crimes e ganância. Descoberto e extraído de forma ilegal, o fóssil foi vendido a um receptador e adquirido em 1991 pelo Museu Estadual de História Natural de Stuttgart, na Alemanha. Quando cientistas europeus começaram a preparar o material para estudo, em meados dos anos 1990, descobriram que contrabandistas haviam adulterado o crânio com gesso e massa automotiva para alongar artificialmente o focinho, com o objetivo de superfaturar o preço no mercado negro. A frustração diante da fraude rendeu ao dinossauro seu nome científico: Irritator challengeri. O gênero Irritator deriva da irritação dos pesquisadores, enquanto o epíteto challengeri homenageia o professor Challenger, personagem do romance O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle.
Importância científica
Apesar da adulteração, o crânio é o mais completo do mundo de um espinossaurídeo, família de dinossauros com focinhos alongados semelhantes aos dos crocodilos. Estudos comparativos com outro fóssil encontrado na Bacia do Araripe, o Angaturama limai, sugerem que ambos podem ser da mesma espécie. "Com os dois fósseis aqui, agora podemos fazer estudos comparativos e desvendar esse mistério", afirma Álamo Saraiva, paleontólogo e diretor do museu cearense. "Por isso, é importante que tenha voltado para o lugar de onde nunca deveria ter saído."
Repatriação e educação
A mobilização pela devolução do Irritator foi inspirada pelo sucesso do retorno de outro fóssil, o Ubirajara jubatus, repatriado em 2023. "O Irritator é um holótipo, ou seja, o exemplar que dá nome a uma nova espécie", explica o paleontólogo Alexander Kellner, ex-diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro. "Todos os holótipos que foram roubados deveriam voltar para o Brasil. O acordo é uma grande e importante vitória do nosso trabalho no campo científico." Quando exposto no museu cearense, o fóssil terá um papel fundamental na educação infantil, despertando a curiosidade das crianças sobre a ciência e a história natural.



