Pesquisadora anuncia correções em estudo sobre tratamento para lesão medular
Correções em estudo sobre tratamento para lesão medular

Pesquisadora anuncia revisão completa de estudo sobre tratamento inovador para lesões na medula espinhal

A cientista Tatiana Sampaio confirmou que realizará ajustes significativos no artigo científico que descreve os primeiros testes em humanos com a polilaminina, uma substância investigada como potencial terapia para lesões medulares. Ela esclareceu que o texto passará por uma revisão geral abrangente, incluindo ajustes técnicos, correções na apresentação de dados e modificações na descrição dos resultados.

Publicação preliminar e contexto da pesquisa

O estudo foi inicialmente divulgado como pré-print em fevereiro de 2024, uma versão preliminar disponibilizada publicamente antes da revisão por pares. A polilaminina é uma proteína derivada da laminina, molécula natural presente nos tecidos corporais que fornece suporte celular. A hipótese central da pesquisa sustenta que, quando aplicada em uma medula espinhal lesionada, a substância poderia estimular a regeneração de conexões nervosas.

O trabalho que será revisado sintetiza resultados de aproximadamente duas décadas de pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A fase experimental em humanos começou em 2018, envolvendo oito pacientes. Anteriormente, a molécula havia sido avaliada em cães. Os resultados atraíram a atenção do laboratório Cristália, que já investiu cerca de R$ 100 milhões no desenvolvimento da substância para transformá-la em medicamento.

Visibilidade e críticas recebidas

No início de 2026, a pesquisa ganhou grande destaque midiático quando Tatiana concedeu entrevistas ao lado de Bruno Drummond, um dos pacientes participantes que sofreu lesão medular e recuperou a capacidade de andar. A repercussão nas redes sociais foi intensa, mas também gerou críticas de especialistas que apontaram inconsistências na apresentação de dados e questionaram a interpretação da eficácia do tratamento.

Um dos pontos mais criticados envolveu a situação de um paciente que faleceu poucos dias após o procedimento, mas que no gráfico do estudo aparecia com melhora registrada após cerca de 400 dias de acompanhamento. A pesquisadora reconheceu que se trata de um erro que será corrigido, explicando que os dados pertencem, na verdade, ao participante 2 e foram atribuídos incorretamente ao participante 1 devido a um erro de digitação.

Principais correções planejadas

Tatiana detalhou as principais alterações que serão implementadas:

  • Substituição de figuras relacionadas a exames de eletromiografia utilizados para avaliar possível regeneração de nervos e músculos. Especialistas haviam observado que, em alguns casos descritos como sucesso, os exames não mostravam mudanças claras.
  • Inclusão de nova análise separando os pacientes de acordo com o tipo de lesão. Entre os quatro participantes com lesões torácicas, todos evoluíram do grau A para o grau C na Escala de Avaliação da Lesão Medular (AIS).
  • Revisão completa da redação para esclarecer trechos que não estavam suficientemente claros na versão original, melhorando a explicação dos procedimentos e resultados.

Apesar das correções, Tatiana afirma que os dados apresentados e as conclusões do estudo permanecem os mesmos. Ela enfatizou que a mudança principal está na forma de escrever e apresentar as informações, não no conteúdo substantivo da pesquisa.

Questões pendentes e debate científico

Especialistas continuam levantando dúvidas importantes sobre a polilaminina. Uma delas questiona se a substância foi realmente responsável pelas melhoras observadas nos pacientes, já que todos também passaram por cirurgia e fisioterapia intensiva — tratamentos que por si só podem gerar algum grau de recuperação.

Outra questão envolve a segurança do procedimento. Como o estudo é pequeno e preliminar, pesquisadores afirmam que são necessários testes maiores para avaliar possíveis riscos e efeitos adversos. O próprio pré-print menciona que mortes por pneumonia e sepse registradas entre participantes poderiam, em princípio, estar relacionadas a um possível efeito imunossupressor da polilaminina.

Desenho do estudo e perspectivas regulatórias

Um ponto de debate significativo entre especialistas envolve o desenho do estudo. A pesquisa foi conduzida como um ensaio de braço único, em que todos os participantes recebem o tratamento, sem um grupo controle para comparação. Tatiana defende que essa abordagem é suficiente, argumentando que com um número grande o suficiente de pacientes, passa-se a ter um grupo controle universal.

No entanto, especialistas questionam essa estratégia. Para o presidente da Academia Brasileira de Neurologia, Delson José da Silva, a ausência de comparação com outro grupo impede concluir se a melhora observada está relacionada à polilaminina. Ele explica que muitos pacientes nesse tipo de caso melhoram apenas com a cirurgia e a descompressão, independentemente da administração da polilaminina.

Caminho regulatório e impacto social

Para que a substância possa se tornar um medicamento, ainda será necessário cumprir várias etapas regulatórias. O primeiro passo é a realização de ensaios clínicos oficiais em humanos, começando pela fase 1, voltada à avaliação de segurança em um pequeno grupo de participantes. Essa etapa foi aprovada em janeiro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, mas ainda aguarda análise de comissões de ética.

Caso a segurança seja confirmada, o estudo precisará avançar para as fases 2 e 3, nas quais são avaliadas eficácia, dosagem adequada e possíveis efeitos adversos em populações maiores. Somente após essas etapas será possível solicitar o registro sanitário para comercialização do medicamento.

Mesmo antes do início desses testes regulatórios, a divulgação do estudo mobilizou pacientes e familiares de pessoas com lesão medular. Segundo o laboratório Cristália, cerca de 40 ações judiciais foram protocoladas para garantir acesso à substância, e 19 aplicações já foram realizadas por determinação da Justiça, fora de ensaios clínicos formais.