Canto das fêmeas de anuros: estudo inédito revela que 112 espécies têm vocalização feminina
Canto das fêmeas de anuros: estudo revela 112 espécies com vocalização

Canto das fêmeas de anuros: estudo inédito revela que 112 espécies têm vocalização feminina

A origem grega da palavra "anuro" significa literalmente "sem cauda". É nesta ordem de animais que estão os sapos, rãs e pererecas, bichos que têm na vocalização uma ferramenta crucial para a sobrevivência das espécies. Historicamente, o canto desses anfíbios sempre foi objeto de estudo da ciência, mas com um foco quase exclusivo nos machos. Agora, uma nova perspectiva ganha força e revela descobertas surpreendentes: pesquisadores têm se dedicado a entender sistematicamente a vocalização das fêmeas, um campo até então pouco explorado.

Mudança de paradigma na pesquisa científica

Erika Santana, pós-doutora pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), faz parte da equipe que liderou essa investigação pioneira. "Anuros vocalizam ao interagir com outros indivíduos. O canto que ouvimos quando estamos perto de um rio ou uma poça cheia de sapinhos não é apenas bastante evidente para nós, como também é crucial para a ecologia e reprodução dos anuros, já que em geral o que ouvimos são machos tentando atrair uma parceira para acasalar", explica a pesquisadora.

Durante muito tempo, os cientistas focaram nos machos para identificar espécies, compreender a evolução ou investigar como os sons atraem parceiras e afastam competidores. Sabe-se, inclusive, de predadores que usam esse som para localizar e caçar os anuros. Porém, apesar do vasto conhecimento acumulado sobre os machos, pouco se sabia sobre o som emitido pelas fêmeas.

Um trabalho de detetive científico

O estudo é fruto de uma parceria entre três mulheres latinas: a brasileira Erika Santana e as colombianas Angela Mendoza-Henao e Johana Goyes Vallejos. Elas analisaram informações nos repositórios de artigos Web of Science e Google Scholar, tendo acesso a quase três mil estudos científicos. As informações sobre cantos de fêmeas muitas vezes estavam escondidas em poucas frases ao longo dos textos, exigindo um verdadeiro trabalho de detetive.

O resultado surpreendeu até as próprias pesquisadoras: os levantamentos mostraram que pelo menos 112 espécies de anuros têm fêmeas que vocalizam. "Os cantos das fêmeas em geral possuem o volume mais baixo pois possuem menor amplitude sonora quando comparados aos cantos dos machos. É o que os poucos estudos que analisaram os parâmetros acústicos dos cantos das fêmeas mostraram", complementa Erika.

Tipos de canto e categorias propostas

No caso das fêmeas, os sons mais comuns identificados foram:

  • Canto agonístico: emitido em resposta a uma ameaça, como um predador
  • Canto de cortejo: emitido durante uma interação próxima com um potencial parceiro sexual

Esses dois tipos tendem a ser mais discretos. Porém, há exceções notáveis: fêmeas de pelo menos três espécies exibem cantos de anúncio idênticos aos dos machos. Isso reforça o alerta para que pesquisadores sempre chequem o sexo do indivíduo que está cantando antes de pressupor que se trata de um macho.

As pesquisadoras propuseram simplificar os estilos de cantos das fêmeas em seis categorias bem definidas:

  1. Anúncio
  2. Corte
  3. Amplexo
  4. Soltura
  5. Agonia
  6. Agressivo

"Nossa proposta foi tentar reduzir essas redundâncias, simplificando os tipos de cantos em seis categorias, definidas de acordo com os tipos de contexto social no qual os cantos foram emitidos. Acreditamos que estas seis categorias sejam suficientes para definir os tipos de cantos emitidos tanto por macho quanto por fêmeas", detalha Erika Santana.

Quebrando mitos e abrindo novas perspectivas

O primeiro registro de canto de uma fêmea de anuro data de 1906, mas o tema ficou estagnado por cinco décadas. A escassez de estudos se deve a dois fatores principais: a dificuldade técnica em registrar esses sons e o viés científico historicamente voltado para os machos. A máxima de que "se está cantando, é macho" ainda é forte na pesquisa tradicional.

"No nosso trabalho, o canto de cortejo foi o segundo tipo de canto mais comum exibido por fêmeas, demonstrando que talvez as fêmeas tenham um papel mais ativo na interação com os machos do que se pensava. Esperamos que nosso trabalho contribua para uma mudança em tais mentalidades e desperte o interesse para um olhar mais atento no que as fêmeas estão fazendo", revela a bióloga.

Importância biológica e perspectivas futuras

Do ponto de vista biológico, estudar a vocalização feminina revela que a comunicação entre os anuros é um sistema integrado e complexo. Vocalizar tem custos energéticos significativos e pode atrair predadores, portanto entender por que as fêmeas correm esse risco ajuda a responder perguntas fundamentais sobre a evolução dessas espécies.

"Estudar ecologia comportamental tem se tornado cada vez mais importante, pois ainda compreendemos pouco como as mudanças ambientais causadas pela nossa espécie afetam os comportamentos dos indivíduos", conclui Erika Santana.

No futuro, esse tipo de estudo poderá apontar como fatores ambientais — como a poluição sonora causada pelas atividades humanas ou as mudanças climáticas em curso — afetam a comunicação essencial para a reprodução desses animais. A pesquisa abre caminho para uma compreensão mais completa e equilibrada do comportamento dos anuros, destacando o papel ativo das fêmeas em ecossistemas onde antes eram consideradas meras espectadoras.