Pesquisa brasileira sequenciará 750 DNAs de Angola para ampliar diversidade genética global
Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está envolvido em um projeto internacional que vai sequenciar 750 amostras de DNA coletadas em Angola. A iniciativa, batizada de AGenDA, que significa "Avaliando a Diversidade Genética na África", conta com a participação de nove países africanos e tem como objetivo principal aumentar a representatividade das populações africanas em bancos de dados genéticos de todo o mundo.
Importância da pesquisa para a ciência global
Segundo as pesquisadoras envolvidas, a África é o continente mais geneticamente diverso do planeta, com mais de 2 mil grupos etnolinguísticos. No entanto, os dados genômicos africanos estão sub-representados nos bancos de dados mundiais, que são majoritariamente abastecidos por populações de origem europeia. Este projeto busca reparar essa lacuna, mapeando grupos pouco estudados e ampliando o conhecimento sobre a diversidade genética humana.
O sequenciamento de DNA é um processo que lê as informações genéticas de um organismo, revelando detalhes sobre saúde, ancestralidade e diversidade biológica. Com isso, os pesquisadores esperam contribuir para o desenvolvimento da medicina de precisão, que adapta diagnósticos e tratamentos ao perfil individual de cada pessoa, baseando-se em informações genéticas, biológicas e ambientais.
Impactos na medicina de precisão
Um dos principais impactos do projeto está ligado à medicina de precisão. Atualmente, muitos tratamentos são desenvolvidos e testados em populações de ascendência europeia, o que pode levar a ineficiências ou efeitos adversos em pessoas de outras origens genéticas. Por exemplo, variantes genéticas comuns na África podem ser erroneamente classificadas como "raras" ou "patológicas" simplesmente porque não estão catalogadas nos bancos de dados existentes.
Ao incluir populações africanas sub-representadas, o AGenDA visa tornar a medicina de precisão mais justa e eficaz para todos, incluindo brasileiros com ancestralidade africana. Isso porque o Brasil recebeu um grande contingente de populações da África, especialmente de Angola, durante o período de escravização, tornando essencial o estudo desses genomas para entender a formação genética da população brasileira.
Contribuições para os estudos de ancestralidade
O projeto também terá um impacto significativo nos estudos sobre ancestralidade. Com a ampliação dos bancos de dados genéticos, será possível reconstruir com mais precisão a história evolutiva da humanidade, diferenciar melhor grupos étnicos africanos na diáspora e detectar misturas genéticas complexas em brasileiros, afro-americanos e latino-americanos.
A professora Iscia Lopes-Cendes, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, ressalta que o interesse da pesquisa não é apenas africano, mas também profundamente brasileiro e americano. Ela explica que, sem dados dessas populações específicas, a origem africana dos brasileiros não aparecerá adequadamente nos estudos, prejudicando a compreensão da diversidade genética nacional.
Fortalecimento da ciência africana e avanços globais
O projeto é liderado por pesquisadores africanos e abrange populações de vários países, incluindo Angola, República Democrática do Congo e Quênia. A coleta das amostras foi realizada após um esforço dos pesquisadores em explicar a relevância do estudo para as comunidades locais, que se voluntariaram para participar.
Após a conclusão do sequenciamento, as amostras voltarão para Angola, onde darão origem ao primeiro banco de genoma do país. Isso representa um rompimento com o histórico de "extrativismo científico", garantindo que os países africanos tenham soberania sobre seus dados genéticos e possam manejar sua própria história científica.
A médica geneticista angolana Nkembi Matilde Miguel Ferraz, uma das autoras do estudo, expressou sua felicidade em fazer parte deste grupo, destacando que é uma grande evolução na ciência de forma global. Ela enfatiza que o continente africano tem poucas mulheres na ciência, especialmente na área de genômica, e sua participação neste projeto é um passo importante para mudar esse cenário.
Em resumo, o projeto AGenDA não só amplia a diversidade genética nos bancos de dados mundiais, mas também promove avanços na medicina de precisão, fortalece a ciência africana e contribui para uma compreensão mais precisa da ancestralidade global, com benefícios diretos para o Brasil e outras nações das Américas.
